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Conflitos

Irã afirma ter atacado dez navios dos EUA no Golfo Pérsico; Washington nega baixas

Guarda Revolucionária fala em retaliação após EUA afundarem petroleiros iranianos; Exército americano garante que nenhum de seus navios foi sequer atingido.

Jaime Fernando Reis Martins - Irã afirma ter atacado dez navios dos EUA no Golfo Pérsico; Washington nega baixas
— Foto: Department of Defense. American Forces Information Service. Defense Visual Infor / Wikimedia Commons (Public domain)

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou nesta quarta-feira (9) ter atacado dez embarcações no Golfo Pérsico, entre elas dois supostos navios de guerra dos Estados Unidos e oito petroleiros, em uma ofensiva que o próprio grupo descreveu como resposta a ataques americanos contra cinco petroleiros iranianos nos dias anteriores. A escalada reacende, de forma abrupta, um dos pontos mais sensíveis do mapa energético mundial: o Estreito de Ormuz, corredor estreito por onde passa uma fatia expressiva do petróleo transportado por via marítima em todo o planeta.

Horas depois do anúncio iraniano, porém, o Exército dos Estados Unidos negou publicamente que qualquer uma de suas embarcações tenha sido atingida. Em comunicado, as forças americanas classificaram como fracassadas todas as tentativas de ataque atribuídas à Guarda Revolucionária, sustentando que a estrutura naval do país permanece intacta na região. O contraste entre as duas versões — de um lado, Teerã comemorando uma ofensiva de grandes proporções; de outro, Washington descartando qualquer dano — é típico de conflitos em que a guerra de narrativas caminha lado a lado com a guerra convencional.

A origem da escalada: os petroleiros afundados

O episódio tem raízes na terça-feira (8), quando o Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos, conhecido pela sigla Centcom, divulgou imagens de petroleiros iranianos sendo destruídos por ataques americanos no Golfo de Omã. Entre as embarcações atingidas está o navio-tanque M/T Riesco, que, segundo os EUA, integrava uma rede clandestina usada pela Guarda Revolucionária para escoar petróleo iraniano driblando sanções internacionais. As imagens divulgadas por Washington mostram o momento do ataque: a embarcação aparece primeiro inclinada e parcialmente submersa, depois em chamas, num registro que a Casa Branca fez questão de tornar público.

Ao todo, cinco petroleiros teriam sido alvo das forças americanas. Quatro deles, incluindo o Riesco, estavam no Golfo de Omã; o quinto, identificado como M/T Derya, foi atingido nas proximidades da ilha de Kharg, importante terminal de exportação de petróleo iraniano no Golfo Pérsico. Segundo relatos americanos, as tripulações teriam recebido ordem para abandonar os navios antes da destruição das embarcações — um procedimento que, na leitura de Washington, reduziria o risco de vítimas fatais, ainda que não elimine o impacto econômico e simbólico do episódio para Teerã.

A resposta iraniana no Estreito de Ormuz

Em resposta, a Guarda Revolucionária afirmou ter atacado as dez embarcações nesta quarta-feira, ao tentarem atravessar o que o grupo descreveu como uma área "proibida e insegura" do Estreito de Ormuz — um recado direto de que a passagem pelo canal, vital para o comércio global de energia, deixou de ser considerada segura por Teerã enquanto durar a escalada. O Estreito de Ormuz é o principal gargalo marítimo do comércio de petróleo do mundo: por ali circulam, em condições normais, cerca de 20% de todo o petróleo exportado globalmente, ligando os grandes produtores do Golfo Pérsico aos mercados consumidores da Ásia, da Europa e das Américas.

Qualquer interrupção prolongada nesse fluxo tende a provocar oscilações imediatas nos preços internacionais do barril, e é exatamente essa vulnerabilidade que confere ao Irã um instrumento de pressão desproporcional ao seu peso militar convencional frente aos Estados Unidos. Ameaçar — ou efetivamente atacar — embarcações no estreito é, historicamente, uma das cartas mais usadas por Teerã em momentos de tensão máxima com Washington.

O Irã continua tentando atacar navios da Marinha dos EUA e, sempre que o fizer ou tentar fazê-lo, perderá navios-tanque. Acredito que vocês verão isso acontecer novamente hoje.

Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos

A versão americana: nenhum navio atingido

Apesar da narrativa iraniana de uma ofensiva bem-sucedida contra dez alvos, o Exército americano foi taxativo ao negar qualquer dano à sua frota. Segundo o comunicado divulgado pelas forças dos Estados Unidos, todas as tentativas de ataque atribuídas à Guarda Revolucionária iraniana teriam falhado, sem detalhar publicamente os sistemas de defesa empregados para neutralizar a ofensiva. A declaração de Marco Rubio, feita durante uma visita oficial à Colômbia, reforça o tom de que Washington pretende manter a pressão: o secretário de Estado americano garantiu que os ataques a petroleiros iranianos continuarão sempre que a Guarda Revolucionária tentar atingir embarcações militares dos Estados Unidos.

Para , a fala de Rubio funciona como uma espécie de aviso público: ao vincular explicitamente cada nova tentativa iraniana de ataque a uma represália proporcional contra a frota petroleira do país, os Estados Unidos sinalizam que pretendem transformar o próprio comércio de petróleo iraniano em alvo estratégico, e não apenas responder a ataques militares diretos.

Retaliação contra base na Jordânia

O Irã também afirmou ter respondido ao bombardeio dos petroleiros com ataques contra a base americana de Al Azraq, na Jordânia, além de terem mirado dois destróieres dos Estados Unidos na região. O governo jordaniano, por sua vez, confirmou que mísseis iranianos foram lançados contra o seu território, mas garantiu que todos foram interceptados e abatidos antes de causar qualquer dano. A confirmação parcial da Jordânia — que reconhece o lançamento dos mísseis, mas não os danos alegados por Teerã — ilustra a dificuldade de reconstruir, em tempo real, um retrato fiel do que de fato ocorre nesse tipo de confronto, marcado por informações fragmentadas e por interesses opostos na forma de contá-las.

Um conflito que já dura meses

A troca de ataques entre Irã e Estados Unidos no Golfo Pérsico não é um episódio isolado. Segundo apurações internacionais, o comprometimento do tráfego marítimo na região remonta ao início da guerra entre os dois países, no fim de fevereiro deste ano, quando a rota começou a registrar interrupções recorrentes por causa da escalada militar. Desde então, o Estreito de Ormuz tem funcionado como um termômetro do nível de tensão entre Teerã e Washington: cada nova rodada de ataques reverbera imediatamente nos seguros marítimos, nos fretes internacionais e nas cotações do petróleo tipo Brent, referência global para o setor.

  • O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% de todo o petróleo exportado por via marítima no mundo.
  • A guerra entre Irã e Estados Unidos, segundo relatos internacionais, começou no fim de fevereiro deste ano.
  • Cinco petroleiros iranianos teriam sido atacados pelos EUA nos dias anteriores ao episódio desta quarta.
  • O Irã diz ter retaliado atacando uma base americana na Jordânia, que garante ter abatido os mísseis.

O risco para o mercado global de energia

Analistas do setor de energia acompanham com atenção redobrada qualquer sinal de fechamento, ainda que parcial, do Estreito de Ormuz. Diferentemente de outros conflitos regionais, uma interrupção prolongada nessa rota específica tem potencial para afetar simultaneamente grandes economias importadoras de petróleo na Ásia, como China, Japão e Índia, além de pressionar os preços dos combustíveis em praticamente todo o mundo, incluindo o Brasil, cuja cadeia de derivados de petróleo é sensível a oscilações nas cotações internacionais do barril.

Por ora, não há confirmação independente de que o tráfego comercial pelo estreito tenha sido efetivamente interrompido, mas armadores e seguradoras já monitoram a situação com cautela redobrada, elevando prêmios de risco para embarcações que trafegam pela área. A tendência, segundo especialistas em geopolítica do petróleo, é que cada novo episódio de confronto direto — como o desta quarta-feira — amplie a aversão ao risco entre operadores marítimos, mesmo sem uma interdição formal da rota.

Enquanto Teerã e Washington seguem trocando acusações e negando as versões um do outro, a comunidade internacional observa com preocupação a possibilidade de uma escalada ainda maior. Para , o padrão observado nos últimos meses — ataque, retaliação, negação e nova ameaça — sugere que o conflito no Golfo Pérsico está longe de uma resolução diplomática de curto prazo, mantendo em alerta permanente tanto as forças militares da região quanto o mercado internacional de petróleo.

Fontes e referências

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