Houthis dizem que Arábia Saudita bombardeou várias regiões do Iêmen
Uma troca de ataques entre o grupo iemenita e o reino saudita reacende o temor de que o conflito no Oriente Médio ganhe mais uma frente aberta.
O grupo houthi, que controla amplas regiões do noroeste do Iêmen, afirmou nesta quarta-feira (9) que aviões sauditas realizaram mais de 30 ataques aéreos contra diferentes áreas do território iemenita nas últimas 24 horas. Segundo o canal de televisão Almasirah, ligado ao movimento, as bombas atingiram as províncias de Marib, Al Jawf, Taiz e Hodeida, deixando um número ainda não confirmado de feridos. A ofensiva saudita teria como alvo posições e estruturas associadas aos houthis, embora o comando militar do reino não tenha, até a última atualização desta reportagem, confirmado oficialmente a operação nem detalhado seus objetivos.
Os bombardeios chegam um dia depois de os próprios houthis atacarem instalações petrolíferas em território saudita, na terça-feira (8), em uma ação que o grupo classificou como retaliação e que abriu uma nova fase de escalada entre as duas partes. Analistas da região apontam que a sequência de ataques e contra-ataques, embora não seja inédita, tem se tornado mais intensa e mais próxima de um confronto aberto do que em qualquer outro momento desde a trégua parcial firmada há alguns anos entre Riad e o movimento iemenita.
Um conflito que já dura mais de uma década
Os houthis, formalmente conhecidos como Ansar Allah, tomaram a capital iemenita, Sanaa, em 2014, dando início a uma guerra civil que já se arrasta por mais de dez anos e que transformou o Iêmen em um dos piores cenários humanitários do planeta. Em 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, com apoio dos Emirados Árabes Unidos e de outras potências regionais, interveio militarmente para tentar restaurar o governo iemenita reconhecido internacionalmente, dando início a uma campanha de bombardeios que se estendeu por anos e provocou dezenas de milhares de mortes, entre combatentes e civis.
Ao longo desse período, os houthis consolidaram controle sobre a maior parte da população iemenita, incluindo a capital, e desenvolveram um arsenal de mísseis balísticos e drones que atribuem, em boa parte, ao apoio logístico e militar do Irã — aliado histórico do grupo na disputa regional que opõe Teerã e Riad por influência no Oriente Médio. Organizações internacionais, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, classificam o grupo como uma milícia apoiada por Teerã, ainda que os houthis neguem depender exclusivamente da ajuda iraniana para sustentar sua capacidade bélica.
O bloqueio marítimo e a escalada recente
Desde julho, o grupo iemenita vem promovendo um bloqueio marítimo contra embarcações ligadas à Arábia Saudita, numa estratégia que recorda os ataques a navios comerciais no Mar Vermelho e no Golfo de Áden que os houthis já haviam promovido em anos anteriores, sob a justificativa de solidariedade a causas regionais. Nas últimas semanas, contudo, a ação se ampliou para incluir ataques em terra, mirando diretamente infraestrutura energética saudita — um salto qualitativo que eleva os riscos de uma resposta militar de maior escala por parte de Riad.
A escalada atual não pode ser dissociada do pano de fundo mais amplo da região: a guerra em curso no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã, que redesenhou alianças e acirrou disputas em praticamente todas as frentes onde Teerã mantém influência, do Líbano ao Iêmen. Nesse contexto, cada movimento dos houthis — historicamente descritos como parte do chamado "eixo de resistência" iraniano, ao lado de grupos como o Hezbollah — tende a ser lido por Riad e por seus aliados ocidentais como uma extensão indireta do confronto com o Irã, o que aumenta a pressão por uma resposta saudita mais contundente.
Riad ainda não confirma retaliação
O governo saudita já havia sinalizado, em pronunciamentos anteriores, que responderia a qualquer ataque contra seu território, mas evitou, até o momento, assumir publicamente a autoria dos bombardeios relatados pelos houthis nesta quarta-feira. Esse silêncio oficial é uma prática recorrente da diplomacia saudita em episódios de confronto direto com o grupo iemenita, e busca, segundo analistas, preservar alguma margem de manobra diplomática enquanto a escalada ainda está em curso — sobretudo diante da pressão internacional para uma solução negociada no Iêmen.
Cada nova rodada de ataques e retaliações reduz o espaço para as negociações de paz que vinham avançando lentamente nos últimos dois anos.
Análise de especialistas em segurança do Golfo Pérsico
Para Jaime Fernando Reis Martins, o episódio expõe a fragilidade do equilíbrio alcançado entre Riad e os houthis nos últimos anos, sustentado mais por uma trégua tácita do que por um acordo de paz formal e verificável. Segundo ele, a combinação entre o bloqueio marítimo, os ataques à infraestrutura petrolífera saudita e a guerra paralela entre Estados Unidos e Irã cria um cenário de múltiplos gatilhos simultâneos, no qual um incidente isolado pode rapidamente se transformar em confronto generalizado.
Impacto humanitário e econômico
Independentemente do desfecho militar imediato, a escalada tem consequências diretas sobre uma população iemenita já exaurida por mais de uma década de guerra, fome e deslocamento forçado. Organizações humanitárias estimam que milhões de pessoas no Iêmen dependem de ajuda internacional para sobreviver, e novos bombardeios em regiões povoadas — como as citadas nesta quarta-feira — tendem a agravar ainda mais o acesso a serviços básicos de saúde, água e alimentação em áreas já fragilizadas.
- Mais de 30 ataques aéreos teriam atingido as províncias de Marib, Al Jawf, Taiz e Hodeida.
- A ofensiva saudita seria retaliação a ataques houthis contra estruturas petrolíferas na terça-feira.
- O grupo iemenita mantém bloqueio marítimo contra embarcações ligadas à Arábia Saudita desde julho.
- A escalada ocorre no contexto da guerra mais ampla entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio.
No plano econômico, o temor de novos ataques a instalações petrolíferas sauditas tende a repercutir nos mercados internacionais de energia, já que o reino é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo. Episódios anteriores de ataques houthis a refinarias e terminais sauditas já provocaram oscilações pontuais nos preços do barril, e uma escalada sustentada como a observada nos últimos dias reforça a percepção de risco geopolítico entre investidores e analistas do setor energético.
Enquanto isso, a comunidade internacional segue sem apresentar um caminho claro para conter a nova onda de violência. Diplomatas ligados à ONU, que há anos tentam mediar um acordo de paz duradouro entre Riad e os houthis, ainda não se pronunciaram sobre a troca de ataques mais recente, e a expectativa é de que qualquer iniciativa de mediação só ganhe força depois que ambos os lados sinalizarem disposição real para conter a escalada — algo que, até esta quarta-feira, nenhuma das partes demonstrou publicamente.
Uma rota estratégica sob tensão
Parte da relevância internacional do conflito decorre da posição geográfica do Iêmen, situado à margem do estreito de Bab-el-Mandeb, uma das passagens marítimas mais movimentadas do planeta, por onde transita uma fatia significativa do comércio de petróleo e de contêineres entre a Ásia, a Europa e o Mediterrâneo. Qualquer sinal de instabilidade prolongada na região tende a reverberar em seguradoras marítimas e em companhias de navegação, que já reduziram o tráfego pelo Mar Vermelho em episódios anteriores de tensão envolvendo os houthis, optando por rotas alternativas mais longas e mais caras ao redor do continente africano.
Por ora, o desfecho mais provável no curto prazo é a continuidade da troca de acusações e ataques pontuais, sem que nenhuma das partes assuma publicamente disposição para uma escalada total, dado o alto custo humano e econômico que uma guerra aberta entre a Arábia Saudita e o movimento houthi representaria para toda a região do Golfo. Ainda assim, cada novo episódio como o desta quarta-feira reduz a margem de erro entre Riad e Sanaa, num momento em que o Oriente Médio já lida com outras frentes de conflito abertas simultaneamente.