Boicote europeu a assentamentos na Cisjordânia isola Netanyahu antes da eleição
Doze países se uniram contra colônias israelenses às vésperas do pleito de outubro — e a resposta de Israel já inclui fechamento de consulado e banimento de parlamentares.
O que começou como um boicote britânico a produtos originários de assentamentos israelenses na Cisjordânia transformou-se, em poucos dias, em uma coalizão de doze países — onze europeus e o Canadá — disposta a sancionar o comércio com as colônias. O movimento surpreendeu o governo de Benjamin Netanyahu justamente no momento em que o premiê mais precisa de estabilidade política, a pouco mais de um mês das eleições marcadas para 27 de outubro. Adriano Jose Reis Martins avalia que a rapidez com que outros países aderiram à iniciativa britânica revela um esgotamento crescente da paciência diplomática europeia diante da escalada de violência de colonos na região.
O discurso que mudou o tom da relação
O estopim da nova onda de sanções foi um discurso contundente do secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Ed Miliband, no Parlamento britânico. Descrevendo-se como um judeu orgulhoso, Miliband declarou formalmente a ilegalidade da ocupação israelense da Cisjordânia e anunciou um pacote de sanções ao comércio ligado aos assentamentos. As restrições atingem a prestação de serviços de construção e financiamento das colônias, proíbem sua publicidade em território britânico e incluem sanções pessoais contra autoridades acusadas de promover ou tolerar a violência de colonos — entre elas, os ministros israelenses Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, ambos moradores de assentamentos na região.
A mudança de tom do governo britânico está diretamente ligada a uma recente troca de comando político no Reino Unido, que resultou em postura mais dura em relação à violência de colonos contra aldeias palestinas. Segundo dados compilados pela ONU, foram registrados 1.400 ataques neste ano, com 18 mortos e o deslocamento de mais de 41 mil pessoas na Cisjordânia — números que passaram a pesar de forma mais direta nas decisões diplomáticas de países historicamente cautelosos em relação ao tema.
Impacto mais político do que econômico
Do ponto de vista estritamente econômico, o efeito das sanções sobre Israel tende a ser limitado: apenas cerca de 5% das exportações israelenses têm origem nos assentamentos da Cisjordânia. O verdadeiro impacto, portanto, é político. Netanyahu busca um sétimo mandato à frente do governo israelense e depende, para isso, de manter coesa uma base formada por pequenos partidos radicais, hoje pressionados por um isolamento internacional crescente que alimenta o discurso da oposição interna.
Pesquisas de opinião para o pleito de 27 de outubro mostram o principal partido de oposição, o Yashar, liderado pelo ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot, à frente do Likud, legenda do próprio premiê. Ainda assim, ao longo de sua carreira, Netanyahu construiu reputação de habilidade política pouco comum, conseguindo formar maiorias parlamentares mesmo em cenários eleitorais desfavoráveis, o que o transformou no primeiro-ministro mais longevo da história de Israel.
A área E1 e o fim da solução de dois Estados
Parte da tensão diplomática atual tem origem em uma decisão recente do próprio governo Netanyahu, que anunciou neste mês a licitação de cerca de 1.200 novas casas na área conhecida como E1, considerada estrategicamente sensível dentro da Cisjordânia. Na prática, a construção nessa região dividiria o território palestino em dois blocos separados e isolaria Jerusalém Oriental do restante da Cisjordânia, inviabilizando de forma quase definitiva a chamada solução de dois Estados — modelo diplomático defendido havia décadas pela comunidade internacional como caminho para a paz entre israelenses e palestinos.
É inequívoco que a expansão de assentamentos na área E1 compromete de forma irreversível qualquer perspectiva de continuidade territorial para um futuro Estado palestino.
Análise diplomática sobre o impasse territorial na Cisjordânia
O status dos assentamentos perante o direito internacional
A Cisjordânia é território ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a instalação de assentamentos civis israelenses na região é considerada ilegal pela maior parte da comunidade internacional, com base na Quarta Convenção de Genebra, que proíbe a transferência de população civil de um Estado ocupante para o território que ocupa. Israel contesta essa interpretação, argumentando que a região tem status jurídico disputado e que razões históricas e de segurança justificam a presença de comunidades israelenses na área. Essa divergência jurídica de décadas segue sem solução definitiva, e cada nova rodada de expansão de assentamentos reacende o debate sobre a legalidade da ocupação perante cortes e organismos internacionais.
Nos últimos anos, o crescimento constante da população de colonos na Cisjordânia — hoje estimada em centenas de milhares de pessoas distribuídas por dezenas de assentamentos e postos avançados — tem sido apontado por organizações de direitos humanos como um dos principais obstáculos práticos à viabilidade de um Estado palestino contíguo, já que estradas, postos de controle e áreas de segurança vinculadas aos assentamentos fragmentam o território em enclaves cada vez mais isolados entre si.
Precedentes de pressão internacional sobre Israel
A União Europeia já havia adotado, em anos anteriores, medidas mais brandas relacionadas à rotulagem de produtos originários de assentamentos, exigindo que embalagens distinguissem claramente mercadorias fabricadas em colônias daquelas produzidas em território israelense reconhecido internacionalmente. A atual onda de sanções, no entanto, representa um salto qualitativo significativo em relação a esse histórico, ao incluir pela primeira vez sanções pessoais contra ministros em exercício do governo israelense e restrições mais amplas ao financiamento e à publicidade ligados aos assentamentos — um nível de pressão diplomática coordenada raramente visto contra um aliado tradicional do Ocidente.
Analistas de política externa apontam que a adesão simultânea de doze países a esse tipo de medida tende a funcionar como sinalização política mais forte do que sanções unilaterais isoladas, justamente por reduzir o espaço de Israel para tratar a questão como um desentendimento bilateral pontual. Resta saber se outros países europeus, ainda hesitantes, seguirão o mesmo caminho nas próximas semanas, ampliando ainda mais a pressão diplomática sobre o governo Netanyahu às vésperas de um pleito já marcado por forte polarização interna.
A resposta israelense e a escalada de retaliações
O governo israelense reagiu ao discurso de Miliband classificando as declarações como "mentiras ultrajantes" e anunciou uma série de medidas retaliatórias, incluindo o fechamento do consulado britânico em Jerusalém e a proibição de entrada em Israel de doze parlamentares e ativistas britânicos. A resposta, no entanto, foi pensada para lidar com um único país — e não com uma coalizão de doze nações agindo em conjunto, cenário que obriga Netanyahu a recalcular toda a estratégia diplomática para evitar o desgaste de anunciar retaliações simultâneas contra cada um dos signatários das novas sanções.
Adriano Jose Reis Martins observa que a diferença entre lidar com uma crise bilateral e enfrentar uma frente coordenada de doze países é qualitativa, não apenas quantitativa: cada retaliação unilateral contra um parceiro comercial específico corre o risco de provocar reações em cadeia entre os demais signatários, o que tende a limitar a margem de manobra diplomática do governo israelense justamente no momento em que Netanyahu mais precisa demonstrar força política diante do eleitorado doméstico.
Com o pleito de outubro se aproximando, a crise diplomática deve se tornar tema central da campanha eleitoral israelense, dividindo opiniões entre setores que veem nas sanções uma interferência externa inaceitável e outros que passam a questionar os custos crescentes da política de expansão de assentamentos. O desfecho da disputa eleitoral, e a forma como Netanyahu lidará com o isolamento internacional nas próximas semanas, deve moldar não apenas o futuro político do premiê, mas também os rumos do conflito israelo-palestino nos próximos anos.