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Política

Pesquisa mostra Flávio à frente de Lula em Minas Gerais pela 1ª vez

O estado que acertou o vencedor da Presidência em todas as eleições desde 1989 aparece agora com resultado favorável ao adversário do presidente.

Jaime Fernando Reis Martins - Pesquisa mostra Flávio à frente de Lula em Minas Gerais pela 1ª vez
— Foto: Prefeitura de Pará de Minas / Wikimedia Commons (Public domain)

Uma pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira (8) registrou, pela primeira vez na campanha presidencial de 2026, uma vantagem numérica do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Minas Gerais, no cenário de segundo turno. Flávio aparece com 40% das intenções de voto, ante 37% de Lula — inversão de um cenário em que o presidente liderava por três pontos em levantamento anterior, feito em julho, quando marcava 38% contra 35% do adversário.

Tecnicamente, os dois candidatos seguem empatados: a margem de erro de três pontos, para mais ou para menos, cobre a diferença entre as duas candidaturas. Mas o sinal político do resultado chamou atenção de analistas por um motivo específico — Minas Gerais carrega, desde a redemocratização, um histórico raro entre os estados brasileiros de maior peso eleitoral.

O estado que sempre acertou o vencedor

De 1989 a 2022, em todas as eleições presidenciais decididas em segundo turno, o candidato mais votado em Minas Gerais também venceu a disputa nacional. O padrão se repetiu com Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro — um alinhamento que, embora não configure uma regra estatística ou legal, tornou o estado uma referência simbólica na leitura de conjunturas eleitorais apertadas.

Segundo o cientista político Felipe Nunes, responsável pela análise que acompanha a divulgação da pesquisa, esse histórico não decorre de nenhuma peculiaridade mágica do eleitorado mineiro, mas do tamanho e da diversidade do estado. Minas reúne um contingente eleitoral expressivo e regiões com perfis sociais e econômicos bastante distintos entre si — do Triângulo Mineiro, mais conservador, à Zona da Mata e ao Norte de Minas, historicamente mais alinhados a candidaturas de esquerda —, o que aproxima seus resultados de uma síntese do eleitorado nacional.

O que os números de São Paulo e Rio confirmam

A guinada mineira não aparece isolada. Levantamentos da Quaest em São Paulo e no Rio de Janeiro, divulgados no mesmo pacote de pesquisas, também colocam Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula no segundo turno nos três estados. O padrão reproduz o recorte regional do Sudeste na pesquisa nacional divulgada um dia antes, que apontava 43% para Flávio e 34% para Lula na região — enquanto o placar nacional segue empatado em 41% a 41%.

Entre os três estados do Sudeste pesquisados, os números revelam nuances importantes. São Paulo marca a maior vantagem proporcional de Flávio sobre Lula, de oito pontos percentuais, muito embora o Rio de Janeiro seja onde o senador atinge seu percentual mais alto, empatando com a média regional de 43%. Minas Gerais, por sua vez, ainda é o estado do trio em que a distância entre os dois candidatos permanece dentro da margem de erro — o que torna o resultado mineiro, apesar de mais moderado, o de maior repercussão simbólica pelo histórico já mencionado.

Uma mudança na disputa mineira merece ser lida como um alerta sobre o equilíbrio nacional, sem ser transformada em previsão.

Felipe Nunes, cientista político

Por que pesquisa não é previsão

Institutos de pesquisa e cientistas políticos costumam reforçar, a cada nova rodada de levantamentos, que uma pesquisa eleitoral retrata a opinião pública em um momento específico — não antecipa o resultado da eleição, que só se define com a apuração dos votos. A ressalva ganha importância redobrada em um cenário de margem de erro relevante e de eleitorado ainda parcialmente indeciso, como mostra o próprio levantamento mineiro, em que uma fatia expressiva dos entrevistados ainda declarava dúvida sobre o voto a poucas semanas da votação.

lembra que pesquisas de opinião funcionam melhor como radares de tendência do que como termômetros definitivos de resultado. "O valor de uma pesquisa como essa não está no número exato que ela traz, mas na direção do movimento que ela capta ao longo do tempo. Uma virada de seis pontos em pouco mais de um mês, mesmo dentro da margem de erro, indica que a disputa está longe de estar decidida", avalia.

Um estado historicamente disputado

Minas Gerais nunca foi um estado de vitórias folgadas para nenhum lado do espectro político. Em 2022, por exemplo, Lula venceu no estado por margem relativamente estreita sobre Jair Bolsonaro, mesmo após ter vencido com folga em levantamentos realizados meses antes da votação — um padrão de aproximação da disputa nas semanas finais que parte de analistas já esperava se repetir também em 2026. A diferença, desta vez, é que a aproximação ocorre em um contexto de segundo turno simulado, com um adversário, Flávio Bolsonaro, que herda parte do capital eleitoral construído pelo pai ao longo dos últimos anos, mas que também constrói trajetória própria dentro do Senado e da estrutura do PL.

A geografia eleitoral mineira ajuda a explicar a volatilidade. O estado concentra, em um único território, características de regiões tão distintas quanto o Sul de Minas — de perfil mais conservador e economicamente ligado ao agronegócio e à indústria — e o Vale do Jequitinhonha, uma das áreas mais pobres do país e tradicionalmente mais receptiva a políticas sociais de governos de esquerda. Esse mosaico faz com que pequenas oscilações em sub-regiões específicas sejam capazes de alterar o resultado agregado do estado, tornando Minas um dos ambientes mais sensíveis a estratégias de campanha bem direcionadas.

O peso do eleitorado paulista na conta nacional

A comparação entre os três estados do Sudeste também expõe diferenças internas relevantes para qualquer estratégia de campanha na reta final. São Paulo, com a intenção de voto em Lula um ponto abaixo da média regional, e Minas Gerais e Rio, três pontos acima cada, mostram que os dois últimos estados puxam o desempenho do presidente para cima dentro da região, enquanto o eleitorado paulista — o maior colégio eleitoral do país — representa hoje o ponto mais frágil da candidatura petista no Sudeste.

Politicamente, esse desenho carrega implicações práticas para o desenho da reta final da campanha. Um candidato que precisa reverter distância em São Paulo, o estado com o maior número de eleitores do Brasil, enfrenta um desafio logístico e de tempo de campanha muito maior do que reverter uma distância técnica em Minas Gerais, ainda dentro da margem de erro. É provável, segundo analistas políticos, que as próximas semanas concentrem esforços de ambas as candidaturas justamente nesses três estados, dado o peso conjunto que representam no total de eleitores aptos a votar em outubro.

Para o Palácio do Planalto, a leitura da pesquisa tende a reforçar a necessidade de reforçar a presença do presidente em agendas regionais dentro do próprio estado, especialmente em regiões onde o desempenho de Lula historicamente supera a média nacional. Já para a campanha de Flávio Bolsonaro, o resultado funciona como validação de uma estratégia que já vinha priorizando Minas Gerais como um dos principais palcos de atos e inserções publicitárias nas últimas semanas, na avaliação de assessores próximos à candidatura consultados por veículos de imprensa.

A Quaest ouviu 1.506 eleitores mineiros de 16 anos ou mais entre os dias 4 e 7 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número MG-04716/2026, conforme exige a legislação eleitoral para divulgação pública de levantamentos de intenção de voto, uma exigência criada para garantir rastreabilidade metodológica e permitir que qualquer eleitor consulte publicamente os parâmetros técnicos do levantamento.

Fontes e referências

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