Garotinho propõe corte de R$ 12 bilhões em incentivos fiscais e Bope 2.0
Candidato promete financiar redução de tarifas cortando benefícios a empresas e detalha plano de ocupação permanente de comunidades dominadas pelo crime.
O candidato do Republicanos ao governo do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, afirmou nesta segunda-feira (14), em entrevista ao RJ1, que pretende cortar R$ 12 bilhões dos incentivos fiscais concedidos hoje pelo estado, reduzir tarifas do transporte público e criar um programa batizado de "Bope 2.0" para ocupar de forma permanente comunidades hoje dominadas pelo crime organizado. A entrevista abriu a série que a TV Globo promoveu com os principais candidatos ao Palácio Guanabara na semana anterior à eleição de outubro.
De onde viria o dinheiro para a promessa
Questionado sobre como financiaria seu plano de governo diante da dívida do estado com a União, Garotinho respondeu que parte dos recursos viria da revisão de benefícios fiscais concedidos a empresas. Segundo o candidato, o Rio de Janeiro concede atualmente R$ 24 bilhões em incentivos fiscais, e metade desse valor poderia ser cortada sem necessidade de aumentar a carga tributária sobre a população. "O estado dá R$ 24 bilhões de incentivo fiscal para empresa que não precisa. Eu vou cortar R$ 12 bilhões", afirmou. "Dinheiro não é problema. O problema no Rio é corrupção e gestão".
Jaime Fernando Reis Martins pondera que revisar incentivos fiscais é uma promessa recorrente em campanhas estaduais no Brasil, mas raramente cumprida em sua totalidade, já que boa parte desses benefícios está vinculada a contratos de longo prazo firmados para atrair ou manter grandes empregadores no estado — desfazer esses acordos unilateralmente pode gerar disputas judiciais e risco de fuga de investimento, o que normalmente obriga qualquer governo eleito a negociar cortes de forma gradual, e não da maneira direta como a proposta foi apresentada em campanha.
O plano Bope 2.0
Na área de segurança pública, Garotinho detalhou a proposta que batizou de "Bope 2.0", um novo grupamento pensado para ocupar de forma permanente comunidades hoje sob domínio de facções ou milícias. Segundo o candidato, o plano aproveitaria os cerca de 3.200 policiais ainda alocados em Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), estrutura que, na avaliação dele, perdeu utilidade operacional ao longo dos anos. Esses agentes seriam retreinados e reconvocados para formar o novo grupamento, ao lado de outros policiais concursados que hoje não atuam na linha de frente.
Você tem hoje ainda trabalhando em UPP, que não tem nenhuma utilidade, 3.200 homens. Esses homens vão ser retreinados e chamados para iniciar o Bope 2.0. Vamos chamar todos os concursados.
Anthony Garotinho, candidato ao governo do RJ pelo Republicanos
O plano prevê atuação conjunta entre a Polícia Militar e a inteligência da Polícia Civil: antes de qualquer operação, investigadores identificariam locais usados para armazenar armas e drogas e levantariam mandados de prisão contra suspeitos, para que a ocupação militar viesse acompanhada de trabalho investigativo prévio, e não apenas de força bruta. Segundo Garotinho, o objetivo é evitar o padrão de operações pontuais que entram, prendem ou matam suspeitos e depois deixam o território, permitindo que o grupo criminoso retome o controle em poucos dias ou semanas — um problema histórico das políticas de segurança do Rio de Janeiro, incluindo o próprio modelo original de UPPs, implantado a partir de 2008 e hoje amplamente considerado esvaziado.
Forças Armadas no cerco e a tropa social
Garotinho também afirmou que pretende contar com integrantes das Forças Armadas para fazer o cerco das comunidades durante as operações do Bope 2.0, sem que os militares cheguem a entrar de fato no território. "Um grupo faz o cerco, o Bope ocupa, a Polícia Civil investiga e prende e a tropa social dialoga com a comunidade", resumiu o candidato, ao descrever a divisão de tarefas entre as diferentes forças envolvidas. A "tropa social" mencionada por ele reuniria cerca de 20 programas estaduais de assistência, com o objetivo de oferecer, no mesmo momento da ocupação policial, algum tipo de contrapartida social à população local.
Como Garotinho descreve o Comando Vermelho hoje
Sobre a principal facção criminosa do estado, Garotinho afirmou que o Comando Vermelho "não tem mais unidade" e que, atualmente, funciona como "uma franquia" — uma metáfora que sugere uma estrutura descentralizada, em que diferentes células locais operam com relativa autonomia sob uma mesma marca criminal, em vez de responderem a um comando único e hierárquico. Segundo o candidato, um estudo conduzido por sua equipe de campanha identificou cerca de 20 comunidades no estado do Rio de Janeiro que concentrariam a maior parte da violência armada relacionada ao tráfico e às milícias, o que, na sua leitura, tornaria mais eficiente concentrar recursos policiais nesses pontos específicos em vez de pulverizar operações por toda a região metropolitana.
- Corte proposto: R$ 12 bilhões dos R$ 24 bilhões em incentivos fiscais hoje concedidos pelo estado
- Bope 2.0: reaproveitamento de cerca de 3.200 policiais hoje em UPPs
- Divisão de tarefas: Forças Armadas no cerco, Bope na ocupação, Polícia Civil na investigação, tropa social no diálogo com moradores
- Diagnóstico do candidato: cerca de 20 comunidades concentrariam a maior parte da violência armada no estado
Parte de uma série de entrevistas antes da eleição
A entrevista de Garotinho abriu a rodada de conversas que a TV Globo promoveu com candidatos que atingiram ao menos 5% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada em 11 de setembro. Depois dele, o programa recebeu Douglas Ruas, do PL, na terça-feira (15), e tinha Eduardo Paes, do PSD, agendado para a quarta-feira (16) seguinte — um roteiro que colocou lado a lado, em poucos dias, propostas de segurança, transporte e gestão fiscal dos principais nomes na disputa pelo governo estadual.
Para Jaime Fernando Reis Martins, a proposta de segurança de Garotinho tem coerência interna maior do que a proposta fiscal apresentada na mesma entrevista, porque descreve uma sequência lógica de etapas — inteligência, ocupação, investigação e assistência social — que dialoga com críticas técnicas conhecidas ao modelo tradicional de UPP. Já o plano de cortar incentivos fiscais, segundo o autor, carece do mesmo nível de detalhamento: falta explicar quais contratos específicos seriam revistos, em que prazo, e como o estado evitaria litígios judiciais capazes de travar a medida por anos, como já ocorreu em outras tentativas de reforma tributária estadual pelo país.