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Política

Monitoramento mostra André Mendonça com mais críticas que elogios na crise do STF

Depois de meses sendo tratado como o lado mais popular do embate com Alexandre de Moraes, o ministro vê a maré nas redes sociais virar contra ele.

Jaime Fernando Reis Martins - Monitoramento mostra André Mendonça com mais críticas que elogios na crise do STF
— Foto: Falcão Alado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Um relatório da Ativaweb DataLab, empresa especializada em monitoramento de redes sociais, mostra que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, passou a receber pela primeira vez mais críticas do que elogios na internet desde que sua disputa pública com o colega de Corte Alexandre de Moraes mergulhou o STF em uma crise institucional sem precedentes recentes. O dado marca uma inflexão relevante na forma como a opinião pública digital acompanha o embate entre os dois ministros.

De queridinho das redes a alvo de críticas

Até este levantamento, Mendonça vinha sendo, na maior parte do tempo, o lado mais bem avaliado da disputa nas redes sociais — posição que ganhou força à medida que setores da opinião pública, especialmente entre críticos de Moraes, passaram a enxergar o ministro indicado por Jair Bolsonaro como um contraponto dentro do próprio tribunal. Esse capital de simpatia digital, no entanto, não é permanente, e o novo monitoramento sugere que o desgaste da crise já alcançou também sua própria imagem.

A mudança de humor nas redes tende a refletir o desconforto crescente diante da escalada do conflito, que deixou de se limitar a divergências jurídicas pontuais para se transformar em uma sucessão de decisões que se sobrepõem e se anulam publicamente, alimentando a percepção de que a própria Corte perdeu a capacidade de administrar suas diferenças internas de forma discreta.

O estopim: a disputa pelo comando da Polícia Federal

O episódio mais recente e mais visível dessa crise envolve o comando da Polícia Federal. Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, sob a alegação de que a cúpula da PF teria promovido monitoramento ilegal contra ele próprio e contra o advogado-geral da União. A decisão, tomada a partir de um pedido do Partido Novo, chegou a citar o romance "1984", de George Orwell, como referência simbólica ao que o ministro descreveu como vigilância indevida.

Horas depois, o ministro Flávio Dino reverteu a decisão e determinou a reintegração imediata de Rodrigues e Almada da Costa, classificando a medida de Mendonça como uma "decisão em causa própria" e alertando para riscos a investigações em curso sob sua própria relatoria. O vaivém de decisões contraditórias entre dois ministros do mesmo tribunal, em questão de horas, é justamente o tipo de episódio que tende a corroer a confiança pública na instituição — e a explicar por que também Mendonça, e não apenas Moraes, passou a colher mais rejeição do que apoio nas redes.

Um sintoma do desgaste institucional

Para , o dado divulgado pela Ativaweb DataLab funciona menos como um veredito sobre a popularidade pessoal de Mendonça e mais como um termômetro do desgaste que a crise já provoca sobre o Judiciário como um todo. Quando um conflito interno de um tribunal deixa de opor "o bom mocinho contra o vilão" na percepção do público e passa a ser visto como uma disputa em que ambos os lados perdem, a tendência é que a rejeição se espalhe de forma mais homogênea entre os envolvidos — independentemente de quem tenha, tecnicamente, a razão jurídica em cada capítulo.

Esse tipo de leitura ajuda a explicar por que o monitoramento identificou uma guinada justamente agora, e não em fases anteriores do embate entre Mendonça e Moraes. Enquanto a disputa girava em torno de divergências pontuais de voto ou de estilo, era relativamente fácil para segmentos do público escolher um lado e permanecer fiel a ele nas redes. Já quando o conflito passa a envolver decisões administrativas que afetam diretamente órgãos de investigação, como a Polícia Federal, o episódio ganha uma dimensão mais concreta e mais sujeita a críticas de ambos os lados do espectro político.

Redes sociais como termômetro — e como armadilha

Relatórios de monitoramento de redes sociais como o da Ativaweb DataLab se tornaram, nos últimos anos, ferramentas cada vez mais usadas por assessorias de comunicação de autoridades públicas, partidos e até tribunais para calibrar discursos e antecipar reações. Eles não substituem pesquisas de opinião tradicionais, que usam metodologia amostral e entrevistas diretas, mas oferecem um retrato em tempo real de como determinado tema está sendo debatido nas plataformas digitais, ainda que sujeito a distorções como bots, coordenação artificial de campanhas e viés dos usuários mais ativos, tipicamente mais jovens e mais engajados politicamente do que a média da população.

Mesmo com essas ressalvas metodológicas, o resultado chama atenção porque documenta uma mudança de tendência, não apenas um retrato estático de opinião. Passar de uma posição predominantemente favorável para uma maioria de críticas é um movimento que dificilmente ocorre sem um gatilho concreto — e, no caso de Mendonça, esse gatilho parece coincidir precisamente com o momento em que a crise interna do STF deixou de ser um debate abstrato sobre poderes e passou a interferir diretamente na cúpula de um órgão tão sensível quanto a Polícia Federal.

Um tribunal que perdeu o hábito de discordar em silêncio

Historicamente, divergências entre ministros do Supremo sempre existiram e fazem parte do funcionamento normal de qualquer corte colegiada, cujas decisões dependem justamente do confronto de teses distintas até a formação de uma maioria. O que tornou o episódio atual excepcional não é a existência de discordância, mas a forma como ela passou a se manifestar: por meio de decisões monocráticas conflitantes, tomadas em sequência rápida, sobre o comando de um órgão estratégico como a Polícia Federal, e amplificadas quase em tempo real pelas redes sociais e pela imprensa.

Esse tipo de exposição pública transforma divergências técnicas — normalmente discutidas em sessões, votos escritos e acórdãos — em espetáculo político-midiático, no qual cada decisão vira manchete e cada ministro passa a ser lido não apenas como julgador, mas como protagonista de uma disputa de poder. É justamente nesse ambiente que pesquisas de percepção pública, como a da Ativaweb DataLab, ganham relevância: elas capturam não o mérito jurídico das decisões, mas o efeito cumulativo que a crise vem tendo sobre a imagem de cada um dos envolvidos perante a opinião pública.

Impacto que ultrapassa os dois ministros

Ainda que o levantamento tenha como foco a imagem individual de André Mendonça, o resultado tende a refletir também uma deterioração mais ampla da percepção sobre o próprio Supremo Tribunal Federal como instituição. Pesquisas de opinião realizadas ao longo dos últimos anos já vinham mostrando queda na confiança pública em relação ao Judiciário brasileiro como um todo, um movimento associado tanto a decisões polêmicas quanto à percepção de politização crescente da Corte. Episódios como o atual, marcados por decisões que se anulam mutuamente em questão de horas, tendem a reforçar essa narrativa, independentemente de qual ministro está tecnicamente certo em cada etapa da disputa.

Resta saber se a queda de popularidade registrada agora por Mendonça é passageira — ligada a este episódio específico do afastamento e da reintegração da cúpula da PF — ou se marca uma mudança mais duradoura na forma como parte do público passou a enxergá-lo. Enquanto a crise institucional segue sem sinais de acomodação, é provável que novos levantamentos de monitoramento continuem sendo usados, tanto por analistas políticos quanto pelos próprios gabinetes dos ministros, como termômetro informal de um embate que já extrapolou os limites do debate estritamente jurídico.

  • Levantamento é da Ativaweb DataLab, especializada em monitoramento de redes
  • É a primeira vez que Mendonça recebe mais críticas que elogios desde o início da crise
  • Disputa se intensificou após afastamento e reintegração da cúpula da PF em menos de 24 horas
  • Mendonça citou o romance 1984, de George Orwell, ao justificar o afastamento

Fontes e referências

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