Pular para o conteúdo
Justiça

Médica é morta a facadas em Maringá e marido é preso por feminicídio

Uma confissão feita por telefone a uma familiar foi o fio que levou a polícia até o apartamento onde o crime havia ocorrido, mas parte do caso ainda intriga os investigadores.

Jaime Fernando Reis Martins - Médica é morta a facadas em Maringá e marido é preso por feminicídio
— Foto: Deyvid Setti e Eloy Olindo Setti / Wikimedia Commons (Public domain)

A médica Gassi Mazia, de 37 anos, foi encontrada morta em seu apartamento em Maringá, no Norte do Paraná, com marcas de facadas pelo corpo. O marido dela, João Vitor Domingues Romeiro, de 25 anos, foi preso em flagrante por feminicídio horas depois, após confessar o crime a uma familiar por telefone. O caso, registrado no fim de semana, segue em apuração pela Polícia Civil, que ainda tenta esclarecer pontos relevantes sobre a dinâmica exata dos fatos.

Gassi Mazia atuava como médica na atenção primária à saúde da família, no município de Sarandi, região metropolitana de Maringá. Colegas de trabalho e pacientes lamentaram publicamente a morte da profissional, descrita por familiares como dedicada à comunidade em que atendia havia anos.

Como o caso chegou à polícia

Segundo apurado pela reportagem, o crime foi comunicado à Polícia Militar do Paraná por uma familiar de João Vitor, que ouviu dele próprio a confissão de ter matado a médica. A identidade dessa testemunha não foi divulgada, para preservar sua segurança. De acordo com o depoimento prestado à Polícia Civil, na noite de sábado (5) João enviou mensagens perguntando se a familiar estava em Mandaguari, cidade a cerca de 32 quilômetros de Maringá, e em seguida telefonou pedindo o endereço da casa dela. Até aquele momento, ninguém no círculo familiar sabia da morte de Gassi.

Ao chegar ao imóvel, João estacionou o carro no pátio e, ainda dentro do veículo, disse à familiar que havia matado a esposa. "Ele falou para mim que ele e a Gassi tinham brigado e que ele tinha matado ela", relatou a testemunha em depoimento à polícia. Diante do relato e dos ferimentos que o próprio suspeito apresentava na região do pescoço, a família acionou a Polícia Militar e também o Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate). Ao chegar ao local, os policiais deram voz de prisão em flagrante a João Vitor pelo crime de feminicídio, e ele foi internado em um hospital, sob escolta policial.

A descoberta do corpo

Após o flagrante em Mandaguari, equipes da Polícia Militar de Maringá se deslocaram até o apartamento onde Gassi morava. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) já estava no local quando os policiais chegaram e havia confirmado o óbito da médica, encontrada com múltiplas marcas de facadas pelo corpo. A perícia técnica foi acionada para realizar o levantamento do local do crime, procedimento padrão que busca reconstituir, com base em vestígios materiais, a sequência de eventos ocorrida dentro do imóvel.

A motivação apontada pela investigação

Segundo as primeiras apurações da Polícia Civil, a motivação do crime estaria relacionada à não aceitação do fim do relacionamento entre o casal por parte de João Vitor. Em manifestação encaminhada à Justiça para justificar o pedido de prisão preventiva, a autoridade policial classificou o crime como de extrema gravidade. "A gravidade concreta do crime perpetrado transborda os limites da barbárie ordinária (...) o autuado, por não aceitar o término do relacionamento com sua ex-companheira, invadiu o apartamento desta e a executou covardemente. Mais do que o ato em si, a frieza e a crueldade demonstradas na execução do crime chocam e justificam a prisão preventiva", diz trecho do documento.

Estado de saúde do suspeito e posição da defesa

Até a última atualização do caso, João Vitor permanecia internado em hospital da região, com ferimentos no pescoço cuja origem exata ainda não foi esclarecida publicamente pelas autoridades — não está claro se as lesões decorrem de uma tentativa de autoagressão, de reação da vítima durante o crime ou de outra circunstância ainda sob apuração. Em razão do quadro de saúde, sua audiência de custódia, procedimento em que um juiz avalia a legalidade da prisão em flagrante, precisou ser adiada. A defesa do suspeito informou à emissora afiliada à TV Globo no Paraná que ainda avalia a situação jurídica do caso antes de se manifestar com mais detalhes.

O que ainda falta esclarecer

  • A dinâmica exata da briga que antecedeu o crime dentro do apartamento;
  • A origem precisa dos ferimentos no pescoço apresentados pelo suspeito;
  • Se houve indícios de premeditação ou se o crime ocorreu em contexto de discussão pontual;
  • O histórico do relacionamento entre a vítima e o suspeito, incluindo eventuais registros anteriores de violência doméstica.

observa que casos como esse, em que a confissão ocorre de forma quase acidental a um terceiro antes mesmo de a vítima ser encontrada pela polícia, tendem a acelerar a fase inicial da investigação, mas não dispensam a apuração técnica completa exigida pelo processo penal. "A confissão informal ajuda a localizar rapidamente o suspeito e preservar provas, mas cabe à perícia e à instrução processual reconstruir, com rigor, cada etapa do crime, sobretudo quando há elementos ainda não esclarecidos, como a origem dos ferimentos do próprio acusado", avalia.

Feminicídio: um crime com nome e lei próprios no Brasil

O termo feminicídio qualifica o homicídio de uma mulher motivado por razões de gênero — quando o crime decorre de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação à condição de mulher da vítima. A qualificadora foi incluída no Código Penal brasileiro pela Lei 13.104, sancionada em 2015, justamente para tornar mais visível estatisticamente esse tipo específico de violência letal e agravar a pena aplicada a quem o comete, hoje prevista em reclusão de 12 a 30 anos, com possibilidade de aumento em situações como gravidez da vítima ou presença de filhos menores no local do crime.

Dados de organismos de segurança pública mostram que a maior parte dos casos de feminicídio no Brasil ocorre dentro da própria residência da vítima e é cometida por parceiros ou ex-parceiros, frequentemente após o rompimento do relacionamento — padrão que se repete no caso registrado em Maringá. Especialistas em segurança pública e violência de gênero costumam apontar o período imediatamente posterior ao término de um relacionamento como um dos momentos de maior risco para mulheres em situação de violência doméstica, o que reforça a importância de mecanismos de proteção como medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha, sancionada em 2006.

Ainda que o Brasil conte hoje com uma das legislações mais específicas do mundo sobre violência doméstica e feminicídio, levantamentos de institutos de segurança pública apontam que o número de mulheres mortas por essa razão segue elevado em praticamente todos os estados brasileiros, incluindo o Paraná. Pesquisadores da área costumam atribuir essa persistência a uma combinação de fatores — desde falhas na aplicação efetiva de medidas protetivas já concedidas judicialmente até a dificuldade de vítimas em romper, de fato, vínculos afetivos marcados por controle e ciúme excessivo antes que a violência escale para um desfecho fatal.

Casos como o de Gassi Mazia, em que a vítima exercia uma profissão de cuidado com a saúde de outras pessoas e, ainda assim, não teve a própria vida preservada dentro de casa, costumam reacender o debate público sobre a eficácia das redes de proteção disponíveis a mulheres em situação de risco, independentemente de sua condição social, escolaridade ou profissão — reforçando a mensagem recorrente de especialistas de que a violência de gênero atravessa todas as camadas da sociedade brasileira, sem exceção.

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência doméstica ou familiar podem buscar orientação e denunciar casos suspeitos pelo Disque 180, canal nacional gratuito e disponível 24 horas por dia, ou pelo número de emergência 190, da Polícia Militar, em situações de risco imediato. Delegacias especializadas de atendimento à mulher, presentes na maior parte dos municípios de médio e grande porte do país, também oferecem acolhimento e podem encaminhar pedidos de medida protetiva de urgência à Justiça, mecanismo que obriga o agressor a manter distância mínima da vítima sob pena de prisão em caso de descumprimento.

Fontes e referências

Leia também