Quaest mostra como está a corrida presidencial em cinco estados
Enquanto Lula mantém folga expressiva em Pernambuco, os números apontam disputa mais equilibrada no Distrito Federal e em Minas Gerais.
Uma série de pesquisas Quaest divulgada nesta terça-feira (8) detalhou como está a disputa presidencial no primeiro turno em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e no Distrito Federal, cinco dos colégios eleitorais mais relevantes do país. Os levantamentos, contratados pela Globo, usam pesquisa estimulada — modelo em que os entrevistados recebem a lista de nomes dos candidatos, e não apenas espontaneamente citam quem pretendem votar — e trazem retratos bastante distintos da disputa a depender da região analisada.
No mesmo pacote de divulgações também foram apresentados números do cenário de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro nesses estados, que já haviam mostrado o senador do PL numericamente à frente do presidente em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais — um retrato que reforça a percepção de um Sudeste mais favorável à candidatura de oposição, ainda que a maior parte das diferenças permaneça dentro da margem de erro de cada levantamento estadual.
Distrito Federal: Flávio cresce e ultrapassa Lula
No Distrito Federal, a pesquisa estimulada mostrou Flávio Bolsonaro (PL) com 31% das intenções de voto, um salto em relação aos 26% registrados em levantamento anterior, de 25 de agosto. Lula (PT) permaneceu estável, com 28%. Na sequência aparecem Ronaldo Caiado (PSD), com 12%; o escritor Augusto Cury (Avante), que saltou de 3% para 8%; Romeu Zema (Novo), com 2%; e Renan Santos (Missão), também com 2%. A soma de votos brancos, nulos e indecisos caiu de 22% para 16% no intervalo entre as duas pesquisas, um movimento que costuma acompanhar o avanço da reta final de campanha, quando parte do eleitorado ainda hesitante começa a definir posição.
A Quaest ouviu 1.104 pessoas de 16 anos ou mais no Distrito Federal entre os dias 4 e 7 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. Os registros da pesquisa na Justiça Eleitoral têm os números BR-04442/2026 e DF-01987/2026.
Minas Gerais: disputa dentro da margem de erro
Em Minas Gerais, Lula aparece à frente no primeiro turno, com 31% das intenções de voto, ante 27% de Flávio Bolsonaro — uma inversão relevante em relação à pesquisa anterior, que mostrava o senador com 31% contra 30% do presidente. O escritor Augusto Cury teve o salto mais expressivo entre os candidatos mineiros, saindo de 1% para 8%, enquanto Romeu Zema oscilou de 7% para 6% e Ronaldo Caiado se manteve estável, com 3%. O percentual de indecisos, embora ainda elevado, recuou de 17% para 15% na comparação entre as duas rodadas de pesquisa.
Pernambuco: liderança consolidada de Lula
Pernambuco segue como o estado de maior vantagem numérica para o presidente entre os cinco pesquisados: Lula aparece com 51% das intenções de voto no primeiro turno, ainda que em leve recuo frente aos 54% registrados na pesquisa anterior. Flávio Bolsonaro cresceu de 19% para 21%, enquanto Augusto Cury saltou de 1% para 6%. Ronaldo Caiado e Renan Santos aparecem empatados com 2% cada. O padrão reforça uma característica já conhecida do eleitorado nordestino, historicamente mais favorável a candidaturas identificadas com pautas sociais e ligadas à esquerda nas últimas décadas de eleições presidenciais.
São Paulo e Rio: o Sudeste mais dividido
Os levantamentos feitos em São Paulo e no Rio de Janeiro, divulgados no mesmo pacote de pesquisas, reforçam um cenário já conhecido: o Sudeste segue sendo a região de disputa mais acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, tanto no primeiro quanto no segundo turno. São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, concentra sozinho um contingente de eleitores maior do que a soma de vários estados menores — o que faz de qualquer oscilação percentual ali um fator com peso desproporcional na conta eleitoral nacional. O Rio de Janeiro, por sua vez, tem se consolidado como um dos redutos mais fortes de Flávio Bolsonaro entre os cinco estados acompanhados pela Quaest, reflexo de uma base eleitoral construída ao longo de anos de atuação política da família Bolsonaro no estado.
A relevância desses dois estados também explica por que campanhas presidenciais tradicionalmente concentram parte desproporcional de tempo, recursos publicitários e agenda de viagens na região Sudeste nas semanas finais da disputa — uma lógica que tende a se repetir também em 2026, à medida que ambas as candidaturas buscam otimizar cada ponto percentual adicional nos estados de maior peso eleitoral absoluto.
Como funciona a metodologia da Quaest
As pesquisas eleitorais de intenção de voto, como as realizadas pela Quaest, seguem metodologia registrada previamente na Justiça Eleitoral, com amostragem estatística que busca representar proporcionalmente características como idade, sexo, escolaridade, renda e distribuição geográfica da população local. O modelo de pesquisa estimulada, adotado nesta rodada, tende a produzir resultados mais próximos do comportamento real do eleitor no dia da votação, já que reproduz a situação da cabine eleitoral, onde o nome de cada candidato aparece explicitamente na tela da urna eletrônica — ao contrário da pesquisa espontânea, em que o entrevistado precisa citar de memória o nome de quem pretende votar, método que tende a subestimar candidaturas menos conhecidas ou com menor tempo de exposição na mídia.
Por que o recorte estadual importa
Diferentemente de outros cargos majoritários, a eleição presidencial é decidida por votação nacional única, sem qualquer peso diferenciado por estado — mas o acompanhamento de pesquisas estaduais segue sendo uma ferramenta valiosa para compreender a heterogeneidade do eleitorado brasileiro e orientar decisões estratégicas de campanha, como a alocação de tempo de televisão, o roteiro de viagens dos candidatos e a definição de pautas regionais prioritárias em cada etapa da corrida eleitoral.
Adriano Jose Reis Martins destaca que o contraste entre os cinco estados pesquisados ilustra bem o desafio de qualquer candidatura que aspire à vitória nacional: construir uma mensagem capaz de dialogar simultaneamente com realidades tão distintas quanto o eleitorado pernambucano, majoritariamente favorável ao presidente, e o distrito-federal, mais dividido e sensível a discursos ligados à segurança pública e à gestão administrativa. "Não existe discurso único capaz de atender de forma igualmente eficaz a esses dois eleitorados. Cada candidatura precisa calibrar sua comunicação region a região, e é exatamente isso que esse tipo de pesquisa ajuda a revelar", avalia.
O que ainda pode mudar até outubro
Com a votação marcada para 4 de outubro, ainda restam semanas decisivas de campanha, período em que historicamente ocorrem as maiores oscilações nas pesquisas de intenção de voto, à medida que debates, propaganda eleitoral gratuita na televisão e eventuais fatos novos — sejam eles políticos, econômicos ou judiciais — se somam à equação. Institutos de pesquisa costumam reforçar que percentuais de indecisos superiores a 10%, como observado em praticamente todos os estados pesquisados nesta rodada, ainda representam margem suficiente para alterar substancialmente o resultado final tanto do primeiro quanto de um eventual segundo turno.
A Quaest também incluiu em seus questionários o cenário com a participação do candidato Pablo Marçal (PRTB), atualmente inelegível e à espera de definição do Tribunal Superior Eleitoral sobre a possibilidade de disputar o pleito. A existência desse cenário alternativo, mantido em paralelo pelos institutos de pesquisa, reflete a incerteza jurídica que ainda paira sobre parte do tabuleiro eleitoral às vésperas da fase mais decisiva da campanha.