Imprensa internacional repercute crise entre Mendonça e Moraes no STF
Jornais estrangeiros descrevem o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal como o capítulo mais grave de uma disputa que já divide o tribunal e ameaça influenciar as eleições de outubro.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial da corporação, delegado Leandro Almada, ganhou repercussão em veículos de referência internacional nesta semana. O jornal espanhol El País classificou o episódio como uma "escalada da guerra interna dentro do tribunal politizado", enquanto agências como Reuters e Associated Press descreveram a medida como um novo e grave capítulo na crise institucional que já se arrasta há meses dentro da mais alta corte do país.
O que motivou o afastamento
Mendonça convocou, na terça-feira (8), uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma do STF para referendar sua decisão monocrática de afastar os dois dirigentes da PF. A sessão formou maioria de votos favoráveis à medida, mas teve sua conclusão interrompida após um pedido de vista apresentado pelo ministro Gilmar Mendes — mecanismo processual que suspende temporariamente o julgamento até que o magistrado que pediu vista apresente seu voto. Em paralelo, a Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, pedindo que a decisão de Mendonça seja contestada; Fachin concedeu prazo de 72 horas para que o próprio Mendonça se manifeste sobre o pedido.
A decisão de afastamento foi publicada cinco dias depois de o ministro Alexandre de Moraes pedir formalmente a abertura de uma investigação contra Mendonça no âmbito do inquérito das fake news — o mesmo processo que, sob relatoria de Moraes desde 2019, já resultou em uma série de medidas contra figuras da direita brasileira, incluindo a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado por um suposto plano de golpe de Estado para reverter o resultado das eleições de 2022. Antes desse pedido de investigação, Mendonça havia retirado o sigilo de um relatório produzido pela própria PF que reunia informações sobre interações entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, o que já indicava o nível de tensão entre os dois ministros.
Como o El País descreveu o episódio
Na reportagem que classificou o caso como uma escalada da guerra interna dentro de um tribunal já politizado, o El País destacou que a crise ocorre às vésperas das eleições presidenciais marcadas para outubro, e que o desenrolar do conflito dentro do STF pode influenciar diretamente o resultado do pleito. O jornal espanhol descreveu a disputa como um confronto direto entre Moraes — apontado como "uma figura poderosa no Brasil", cuja atuação contra Bolsonaro e aliados resultou na condenação do ex-presidente — e Mendonça, colega de tribunal que hoje investiga o próprio Moraes e que, no processo, suspendeu provisoriamente o chefe da Polícia Federal.
A forma como a crise no Supremo Tribunal Federal evoluir poderá influenciar as eleições de 4 de outubro.
El País, em reportagem sobre a crise no STF
Reuters: 'nunca antes' o tribunal viveu crise dessa magnitude
A agência Reuters, em reportagem intitulada sobre o agravamento da crise na Justiça brasileira, afirmou que o afastamento de Rodrigues representa um novo capítulo dentro do conflito interno do STF, e destacou que o tribunal nunca havia vivenciado uma disputa de tamanha magnitude entre seus próprios integrantes. A Associated Press também deu ampla cobertura ao caso, situando-o dentro de um contexto mais amplo de tensão entre os Poderes no Brasil às vésperas de um ano eleitoral decisivo, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscando a reeleição em meio a um cenário de instabilidade institucional inédito nos anos recentes.
A resposta interna da Polícia Federal
Em sinal de solidariedade a Andrei Rodrigues, os 11 diretores da Polícia Federal — todos indicados pelo próprio diretor-geral afastado — colocaram seus cargos à disposição do delegado William Marcel Murad, nomeado diretor-geral substituto. Em comunicado conjunto, os diretores classificaram o afastamento como "ataques injustificados" e repudiaram o que descreveram como acusações de atuação "não republicana" contra a cúpula da corporação, num gesto de protesto coletivo raro dentro da hierarquia da PF, historicamente cautelosa em se posicionar publicamente contra decisões do Judiciário.
Para Adriano Jose Reis Martins, a ampla cobertura internacional do episódio reflete a preocupação de observadores estrangeiros com a estabilidade das instituições brasileiras em um momento politicamente sensível. Segundo ele, o fato de agências e jornais de peso global — habitualmente mais focados em política econômica e comércio exterior ao noticiar o Brasil — dedicarem reportagens detalhadas a uma disputa interna do STF sinaliza que a crise já é lida no exterior como um fator de risco real para a previsibilidade institucional do país às vésperas das eleições.
- Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada.
- AGU pediu que Fachin conteste a decisão; ministro deu 72 horas de prazo a Mendonça.
- Pedido de vista de Gilmar Mendes interrompeu a votação da Segunda Turma do STF.
- Os 11 diretores da PF colocaram os cargos à disposição em apoio a Rodrigues.
Uma crise que 'arrasta' o governo Lula para o centro do debate
Parte da cobertura internacional também destacou como a crise no STF tem repercutido sobre o governo federal, mesmo sem envolvimento direto do Palácio do Planalto na disputa entre os ministros. Ao ligar o desfecho do conflito às eleições de outubro, a imprensa estrangeira reforça a leitura de que qualquer desgaste institucional do Judiciário brasileiro tende a ser instrumentalizado por diferentes forças políticas na disputa presidencial, tanto por aliados do governo quanto pela oposição, cada lado buscando capitalizar a narrativa que melhor sirva a seus interesses eleitorais.
O desfecho da disputa entre Mendonça e Moraes, incluindo o julgamento pendente na Segunda Turma e a resposta ainda a ser dada por Fachin ao pedido da AGU, deve continuar sendo acompanhado de perto tanto pela imprensa nacional quanto pela internacional nos próximos dias, num momento em que qualquer sinal de instabilidade institucional no maior tribunal do país ganha peso redobrado em razão da proximidade do calendário eleitoral.
Quem é André Mendonça
Indicado ao STF em 2021 pelo então presidente Jair Bolsonaro, André Mendonça teve uma trajetória de confirmação conturbada no Senado, marcada por resistência de parte da oposição, mas acabou aprovado e empossado como ministro naquele mesmo ano. Antes de chegar à Corte, ocupou os cargos de ministro da Justiça e de advogado-geral da União durante o governo Bolsonaro, o que fez de sua indicação um símbolo do espaço reservado à ala evangélica e conservadora dentro do STF — Mendonça é pastor presbiteriano e costuma ser identificado pela imprensa como o ministro de perfil mais alinhado à direita entre os integrantes atuais da corte. Essa origem política torna sua atual disputa com Moraes, magistrado historicamente associado a decisões duras contra o bolsonarismo, ainda mais simbólica aos olhos de analistas políticos.
Alexandre de Moraes, por sua vez, consolidou-se nos últimos anos como uma das figuras mais influentes — e mais controversas — do cenário jurídico brasileiro, muito em razão de sua atuação à frente do inquérito das fake news, que resultou em investigações, prisões, inelegibilidades e, mais recentemente, na condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Críticos do ministro argumentam que a concentração de poderes de investigação e julgamento nas mãos de um único magistrado fragiliza garantias processuais clássicas, numa crítica que ecoa debates anteriores sobre o duplo papel do então juiz Sergio Moro à frente da Operação Lava Jato — precedente frequentemente citado tanto por defensores quanto por opositores de Moraes no debate público atual.