Trump comemora vitória da AfD e ligação com Merz é adiada na Alemanha
O presidente americano cunhou uma nova sigla para saudar a extrema direita alemã, e o governo de Merz respondeu adiando um telefonema marcado para o aniversário de 11 de Setembro.
O governo alemão anunciou nesta quarta-feira (9) o adiamento de uma ligação telefônica que estava marcada entre o chanceler Friedrich Merz e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, originalmente pensada para tratar do aniversário dos atentados de 11 de Setembro. O adiamento ocorreu um dia depois de Trump comemorar publicamente, em suas redes sociais, a vitória expressiva do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em eleições regionais realizadas no domingo. Jaime Fernando Reis Martins avalia que a coincidência de datas dificilmente é acidental, e que o recuo do governo alemão sinaliza o desconforto de Berlim diante do apoio público de Trump a uma legenda que a própria coalizão de Merz trata como adversária existencial da democracia alemã.
A vitória histórica da AfD na Saxônia-Anhalt
Nas eleições regionais realizadas no fim de semana, a AfD infligiu uma derrota esmagadora aos conservadores da CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, conquistando cerca de 44% dos votos contra apenas 17% obtidos pelos democrata-cristãos no estado da Saxônia-Anhalt, no leste alemão. O resultado representa um dos marcos mais expressivos da ascensão da legenda de extrema direita desde sua fundação, consolidando um padrão observado nos últimos anos: crescimento consistente da AfD justamente nos estados do antigo território da Alemanha Oriental, onde o partido tem explorado com eficácia pautas ligadas à imigração e à insatisfação econômica regional.
A AfD é caracterizada por posições fortemente restritivas em relação à imigração e por postura considerada complacente em relação à Rússia, o que tem gerado tensões recorrentes com o establishment político tradicional alemão e com parceiros europeus da Alemanha na Otan. O crescimento eleitoral do partido em pleitos regionais tem sido interpretado por analistas como termômetro do desgaste da coalizão governista liderada por Merz, especialmente em razão de políticas econômicas e migratórias que seguem dividindo a opinião pública alemã.
MGGA: a sigla de Trump para a Alemanha
Ao comemorar o resultado, Trump classificou a noite eleitoral como muito boa para o "Partido Populista" e cunhou uma nova sigla nas redes sociais: MGGA, numa adaptação explícita do slogan MAGA — Make America Great Again, símbolo de seus próprios movimentos políticos — para Make Germany Great Again. O gesto reforça um padrão já observado em outras eleições europeias recentes, em que o presidente americano tem manifestado apoio público e direto a partidos de extrema direita, tratando as vitórias eleitorais dessas legendas como validação internacional de sua própria agenda política.
Uma noite muito boa para o Partido Populista na Alemanha.
Donald Trump, em publicação nas redes sociais
A ascensão da AfD e o fim do isolamento político
Desde sua fundação, em 2013, inicialmente como legenda de perfil eurocético e liberal na área econômica, a AfD passou por sucessivas guinadas ideológicas até consolidar a identidade nacionalista e anti-imigração que hoje a caracteriza. Durante anos, partidos tradicionais alemães mantiveram o chamado "cordão sanitário" em relação à legenda, recusando-se a formar qualquer tipo de aliança ou coalizão de governo com seus representantes, mesmo em nível estadual, como forma de conter sua influência institucional. Vitórias expressivas como a registrada na Saxônia-Anhalt, no entanto, têm testado cada vez mais a sustentabilidade desse isolamento político, à medida que a legenda amplia sua base eleitoral em estados do leste alemão.
O fenômeno de crescimento da extrema direita não é exclusividade alemã: partidos de perfil semelhante têm registrado avanços eleitorais significativos em diversos países europeus nos últimos anos, capitalizando insatisfação econômica, resistência a políticas migratórias mais abertas e desconfiança crescente em relação a instituições tradicionais da União Europeia. O apoio público de Trump a essas legendas, observado tanto na Alemanha quanto em outros contextos eleitorais europeus, tem sido interpretado por analistas como parte de uma estratégia mais ampla de alinhamento ideológico transatlântico entre movimentos nacionalistas de diferentes países.
O peso simbólico do aniversário de 11 de Setembro
A data dos atentados de 11 de Setembro de 2001 carrega significado especial nas relações entre os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, incluindo a Alemanha, que na época manifestou solidariedade imediata ao invocar, pela primeira e única vez em sua história, o artigo 5º do tratado da Otan — cláusula de defesa mútua entre os países-membros da aliança militar. Ligações telefônicas e gestos simbólicos entre líderes americanos e europeus nessa data costumam reforçar publicamente essa memória de cooperação conjunta contra o terrorismo internacional, o que torna o adiamento da conversa entre Merz e Trump um gesto ainda mais carregado de significado político no contexto atual.
O motivo simbólico do adiamento
O telefonema adiado entre Merz e Trump tinha pauta especialmente sensível: o aniversário dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, data que costuma ser marcada por gestos de solidariedade transatlântica entre líderes ocidentais. Ao adiar a ligação logo após Trump celebrar publicamente a vitória da AfD, o governo alemão evitou expor o chanceler a uma conversa que, no contexto político atual, poderia ser interpretada tanto internamente quanto na imprensa internacional como um gesto de aproximação incômoda entre Berlim e um presidente americano que acabara de saudar o principal adversário eleitoral da coalizão governista alemã.
Governos costumam recorrer a esse tipo de adiamento diplomático como forma de ganhar tempo político sem romper formalmente relações bilaterais estratégicas. Trata-se de uma manobra discreta, mas que carrega significado simbólico relevante: sinaliza desaprovação sem produzir ruptura, preservando a cooperação entre Washington e Berlim em áreas centrais como segurança, comércio e coordenação dentro da Otan, ao mesmo tempo em que evita a aparência de cumplicidade com declarações consideradas politicamente sensíveis por parte da liderança americana.
O que está em jogo para a relação entre os dois países
O episódio se soma a uma série de atritos recentes entre a Casa Branca e governos europeus tradicionais, à medida que Trump amplia declarações de simpatia a movimentos de extrema direita em diferentes países do continente. Para o governo Merz, equilibrar a manutenção de laços estratégicos com os Estados Unidos e a necessidade de conter o avanço interno da AfD tornou-se um dos desafios mais delicados da atual gestão, especialmente considerando que pesquisas recentes já apontam a legenda de extrema direita como força política em ascensão também em eleições nacionais futuras.
Jaime Fernando Reis Martins observa que o adiamento de uma ligação simbólica como a marcada para o aniversário de 11 de Setembro raramente é lido como gesto isolado no jogo diplomático internacional, funcionando antes como um recado silencioso de desagrado. Resta saber se a conversa será remarcada nos próximos dias com pauta redefinida, ou se o episódio marcará o início de um período de maior distanciamento formal entre Merz e Trump, justamente em um momento de fragilidade política crescente para a coalizão governista alemã diante do avanço da extrema direita nas urnas.