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Funeral do rei Harald reúne multidão e realezas europeias em Oslo

Entre guardas fardados e chefes de Estado de mais de dez países, a Noruega despediu-se do monarca que reinou por três décadas — enquanto uma nova rainha enfrenta a própria recuperação de saúde.

Jaime Fernando Reis Martins - Funeral do rei Harald reúne multidão e realezas europeias em Oslo
— Foto: Bernt Rostad from Oslo, Norway / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Noruega realizou nesta quarta-feira (9) o funeral de Estado do rei Harald V, encerrando um ciclo de 13 dias de luto nacional após a morte do monarca, aos 89 anos, no final de agosto. A cerimônia reuniu multidões nas ruas de Oslo e levou à capital norueguesa uma das maiores concentrações de realeza europeia dos últimos anos, com representantes de pelo menos dez casas reais e diversos chefes de Estado estrangeiros, em um retrato do prestígio internacional acumulado por Harald ao longo de mais de três décadas no trono.

O caixão do rei foi conduzido do Palácio Real até a Catedral de Oslo, onde uma cerimônia religiosa marcou o momento central das homenagens, encerrada por volta das 9h no horário de Brasília. Em seguida, o cortejo fúnebre seguiu em procissão solene pelas ruas da capital até o local de sepultamento, acompanhado por guardas da Casa Real norueguesa em uniformes cerimoniais escuros, um dos símbolos mais reconhecíveis das tradições monárquicas do país nórdico.

Um reformista que saiu da sombra do pai

Harald V ascendeu ao trono em 1991, após a morte do pai, o rei Olav V, uma figura extremamente popular que havia conduzido a monarquia norueguesa por 34 anos e que era visto, até então, como um símbolo quase insuperável de proximidade entre a Coroa e o povo. Ao longo de suas mais de três décadas de reinado, Harald construiu progressivamente uma identidade própria, associada a posturas mais abertas e modernizadoras dentro de uma das monarquias constitucionais mais estáveis da Europa — um processo gradual que só consolidou plenamente sua popularidade pessoal nos últimos anos de vida, já livre da comparação direta com o legado do pai.

Entre os episódios mais lembrados de seu reinado está um discurso de 2016, em que Harald definiu a Noruega como um país formado por pessoas que amam outras pessoas do mesmo sexo e por pessoas que amam pessoas de outro sexo, além de reconhecer publicamente a diversidade religiosa e étnica da população norueguesa contemporânea — uma fala amplamente celebrada como um marco de inclusão vindo de um chefe de Estado hereditário, papel tradicionalmente associado a discursos mais formais e distantes de temas sociais contemporâneos.

Realezas de pelo menos dez países presentes

A lista de convidados presentes ao funeral reflete o peso diplomático da monarquia norueguesa dentro do circuito de casas reais europeias. Compareceram o príncipe William e a princesa Anne, representando o Reino Unido; o rei Felipe VI, a rainha Letizia e a rainha Sofia, da Espanha; o rei Carl XVI Gustaf e a rainha Silvia, da Suécia; o rei Frederik X e a rainha Mary, da Dinamarca; o rei Philippe e a rainha Mathilde, da Bélgica; e o rei Willem-Alexander e a rainha Máxima, dos Países Baixos, acompanhados das princesas Amalia e Beatrix. Completaram a comitiva de realeza o príncipe herdeiro Akishino e a princesa herdeira Kiko, representando o Japão, o rei Abdullah II e a rainha Rania, da Jordânia, além de integrantes das famílias reais de Mônaco, Liechtenstein, Luxemburgo e Grécia.

  • Reino Unido: príncipe William e princesa Anne.
  • Espanha: rei Felipe VI, rainha Letizia e rainha Sofia.
  • Suécia: rei Carl XVI Gustaf e rainha Silvia.
  • Dinamarca, Bélgica, Holanda, Japão e Jordânia também enviaram representantes.

Zelensky aproveita a viagem para reunião bilateral

Entre os líderes políticos presentes, chamou atenção a participação do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que aproveitou a passagem por Oslo para se reunir, na véspera da cerimônia, com o primeiro-ministro norueguês e discutir o andamento da guerra contra a Rússia — um lembrete de como eventos de Estado como um funeral real seguem funcionando, na prática, como pontos de encontro diplomático informal entre líderes de países com agendas urgentes. Os Estados Unidos, por sua vez, foram representados por Allison Hooker, subsecretária de Estado para Assuntos Políticos, e não por uma autoridade de primeiro escalão, uma escolha que a imprensa norueguesa tratou como discreta em comparação à presença de chefes de Estado europeus.

A Noruega perde não apenas um rei, mas um símbolo de continuidade que atravessou gerações de mudanças profundas no país e na Europa.

Comentário da imprensa norueguesa sobre o legado de Harald V

A saúde de Sonja e a transição para Haakon VIII

A cerimônia também expôs as fragilidades recentes vividas pela família real. A rainha Sonja, viúva de Harald e também com 89 anos, segue em recuperação de um transplante de pulmão realizado em junho, mas confirmou presença ao funeral, viajando de carro ao lado da nova rainha, Mette-Marit, de 53 anos. Semanas antes, Mette-Marit havia precisado cancelar sua participação na cerimônia de juramento do marido, agora rei Haakon VIII, ao Parlamento norueguês, justamente por complicações de saúde relacionadas ao mesmo período. A sucessão do trono, que já estava em curso desde a morte de Harald, ganhou assim contornos delicados, com a nova geração assumindo funções cerimoniais em meio a desafios pessoais e familiares.

Para , a cobertura internacional do funeral de Harald V ilustra bem o papel simbólico que as monarquias constitucionais europeias ainda desempenham no cenário diplomático contemporâneo: mesmo despidas de poder político efetivo, seguem funcionando como espaços privilegiados de convergência entre chefes de Estado, o que explica por que um funeral real consegue reunir, num mesmo dia, tanto representantes de dinastias centenárias quanto líderes eleitos em meio a conflitos ativos, como Zelensky.

Um legado de estabilidade em tempos de crise

O reinado de Harald V atravessou momentos de forte turbulência para a família real norueguesa, incluindo controvérsias recentes envolvendo Marius Borg Hoiby, filho da rainha Mette-Marit de um relacionamento anterior, que se tornou alvo de investigações criminais nos últimos anos — um dos episódios mais delicados enfrentados pela Coroa em décadas. Ainda assim, a figura de Harald manteve-se relativamente blindada dessas polêmicas, preservando um índice de aprovação popular considerado alto para os padrões europeus até o fim da vida, o que ajuda a explicar a dimensão das homenagens públicas vistas nesta quarta-feira em Oslo.

Com o sepultamento concluído, a monarquia norueguesa entra formalmente em uma nova era sob o comando de Haakon VIII, que já vinha assumindo gradualmente funções de Estado nos últimos anos em razão da idade avançada do pai. A expectativa entre analistas da monarquia é de continuidade nas linhas gerais adotadas por Harald, combinando tradição cerimonial com uma postura pública mais próxima da sociedade norueguesa contemporânea — um equilíbrio que o novo rei já vinha testando em aparições públicas mesmo antes da sucessão se tornar oficial.

Como funciona a monarquia constitucional norueguesa

A Noruega mantém, desde 1814, um sistema de monarquia constitucional em que o rei exerce funções essencialmente cerimoniais e representativas, enquanto o poder executivo efetivo está concentrado no primeiro-ministro e no Parlamento, eleito diretamente pela população. Ainda assim, o monarca segue desempenhando papéis relevantes na diplomacia do país, recebendo chefes de Estado estrangeiros, presidindo cerimônias de abertura do ano legislativo e servindo como figura de unidade nacional em momentos de crise — funções que Harald exerceu de forma consistente ao longo de mais de trinta anos, inclusive durante o atentado terrorista de 2011 em Oslo e na ilha de Utoya, quando seu discurso público foi amplamente citado como um momento de consolo coletivo para o país.

Esse modelo de monarquia parlamentar é compartilhado, com variações, por outros países escandinavos e por boa parte das casas reais presentes ao funeral desta quarta-feira, o que reforça os laços simbólicos e protocolares entre essas nações mesmo diante de sistemas políticos e culturas nacionais distintas. A presença maciça de realezas europeias no funeral de Harald V não é, portanto, apenas um gesto de cortesia diplomática, mas também a reafirmação pública de uma rede de relações dinásticas que atravessa séculos e que continua influenciando, ainda que de forma majoritariamente simbólica, as relações entre os Estados europeus contemporâneos.

Fontes e referências

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