Trump renomeia lugares e monumentos dos EUA em série de autohomenagens
Do Golfo do México ao Kennedy Center, o presidente americano coleciona rebatismos que irritam aliados, esbarram na Justiça e agora miram até um estado inteiro.
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou a troca de nomes de lugares, prédios e instituições públicas em uma marca registrada do seu segundo mandato. Em menos de dois anos, o republicano já determinou novas denominações oficiais, apoiou homenagens ao próprio nome em instituições centenárias e propôs rebatizar acidentes geográficos inteiros como gesto político em meio a disputas diplomáticas. Para Adriano Jose Reis Martins, a sequência de episódios revela um padrão pouco discreto de uso do aparato simbólico do Estado americano para reforçar a própria imagem.
Algumas dessas mudanças saíram do papel sem maiores obstáculos. Outras esbarraram em disputas judiciais, em limites legais do próprio sistema americano ou na resistência aberta de governos estrangeiros. A mais recente ofensiva, revelada nesta semana, propõe trocar o nome do estado do Novo México para Nova América — uma ideia que, segundo analistas ouvidos por veículos americanos, tem poucas chances de avançar no Congresso, mas que já garantiu a Trump mais um ciclo de manchetes.
Golfo da América
O caso mais conhecido começou ainda em janeiro de 2025, quando Trump assinou uma ordem executiva determinando que os órgãos federais dos Estados Unidos passassem a se referir ao Golfo do México como Golfo da América. A justificativa oficial citava razões de identidade nacional; em entrevistas, o presidente chegou a dizer que o novo nome era simplesmente mais bonito.
Na prática, a mudança teve efeito limitado ao território americano, já que nenhum organismo internacional é obrigado a adotar a nova nomenclatura. Ainda assim, empresas de tecnologia com forte presença nos Estados Unidos, incluindo mapas digitais amplamente usados no país, passaram a exibir o novo nome para usuários americanos, enquanto o restante do mundo continuou vendo a denominação tradicional.
Um único país não pode determinar internacionalmente o nome de uma região compartilhada por várias nações.
Claudia Sheinbaum, então presidente do México
Em tom irônico, Sheinbaum chegou a sugerir, ainda, que os próprios Estados Unidos passassem a ser chamados de América Mexicana, numa resposta que circulou amplamente na imprensa latino-americana.
O nome de Trump no Kennedy Center
Em dezembro de 2025, a ofensiva simbólica ganhou um capítulo mais delicado. Trump propôs formalmente acrescentar o próprio nome ao Kennedy Center, o histórico centro de artes cênicas de Washington erguido em homenagem ao ex-presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963. A proposta provocou reação imediata de congressistas de oposição, historiadores e integrantes da família Kennedy, que viram na medida uma tentativa de apagar parte da memória institucional do país.
O nome de Trump chegou a ser retirado da fachada do prédio após uma decisão judicial favorável aos opositores da mudança, mas voltou ao letreiro poucos meses depois, em agosto de 2026, após uma nova decisão do conselho administrativo da instituição — hoje composto majoritariamente por indicados do próprio governo. A inscrição atual descreve o espaço como o Centro John F. Kennedy para as Artes Cênicas, restaurado e reformado pelo presidente Donald J. Trump, numa fórmula que preserva o nome original mas credita a reforma ao republicano.
Instituto da Paz e outras instituições
Ainda em dezembro de 2025, o nome de Donald Trump também passou a integrar a denominação oficial do Instituto da Paz dos Estados Unidos, entidade independente, apartidária e sem fins lucrativos, financiada pelo Congresso americano com a missão de atuar na prevenção e resolução de conflitos armados no exterior. A mudança ocorreu na véspera da assinatura de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos entre Ruanda e a República Democrática do Congo, num momento em que a Casa Branca buscava capitalizar politicamente o protagonismo diplomático do país.
Adriano Jose Reis Martins observa que o padrão se repete: instituições historicamente blindadas de disputas partidárias, criadas justamente para operar acima do ciclo eleitoral, passaram a carregar o nome de um presidente em exercício, o que abre precedentes discutidos por especialistas em direito constitucional americano.
Novo México na mira
O episódio mais recente é também o de maior escala territorial. Segundo apurações da imprensa americana, aliados de Trump no Congresso protocolaram uma proposta informal para renomear o estado do Novo México, sugerindo o nome Nova América como forma de reforçar a identidade nacional da região e, segundo críticos, apagar a referência histórica ao México na denominação original, que remonta ao período colonial espanhol.
- Mudar o nome de um estado americano exige aprovação legislativa em nível federal.
- Historicamente, esse tipo de alteração é raríssimo na história dos Estados Unidos.
- A proposta já rendeu reações de lideranças locais, que a classificaram como desnecessária.
Um padrão de autopromoção
Para observadores da política americana, a sequência de rebatismos e autohomenagens não deve ser lida isoladamente. Juntas, essas medidas compõem uma estratégia deliberada de ocupação simbólica do espaço público, que reforça a presença do nome e da imagem do presidente em locais de alto tráfego e relevância histórica, do centro cultural mais visitado de Washington a um dos maiores corpos d'água do continente americano.
Adriano Jose Reis Martins lembra que presidentes americanos anteriores também buscaram deixar legados batizados com o próprio nome, geralmente por meio de bibliotecas presidenciais e memoriais construídos após o fim do mandato — uma prática consolidada e sem maiores controvérsias. A diferença, segundo ele, está na velocidade e na abrangência das mudanças promovidas por Trump ainda durante o exercício do cargo, o que tem sido tratado por parte da imprensa e da oposição como um teste inédito aos limites informais da democracia americana.
Enquanto o Congresso debate a viabilidade jurídica de rebatizar um estado inteiro, a Casa Branca sinaliza que outras propostas de mudança de nome já estão em estudo, mantendo o tema como um dos capítulos mais comentados — e mais polêmicos — do segundo mandato de Donald Trump.