Messi negocia compra de novo clube na Espanha e amplia negócios fora de campo
Aos 39 anos e ainda em atividade no Inter Miami, o argentino monta silenciosamente uma pequena rede de clubes espanhóis — e ninguém sabe onde ele pretende parar.
Lionel Messi chegou a um acordo de princípio para comprar o C.D. Eldense, clube da segunda divisão espanhola, em mais um passo de sua estratégia de diversificar negócios dentro do futebol enquanto ainda atua como jogador profissional. Aos 39 anos, o astro argentino está perto de adquirir 100% das ações da equipe, hoje na 20ª colocação da competição, numa operação que consolida sua transição gradual de ídolo dos gramados para dirigente e investidor esportivo.
Um segundo clube em pouco mais de um ano
O negócio marca a segunda incursão de Messi na propriedade de clubes espanhóis em um intervalo relativamente curto. Em abril deste ano, ele já havia comprado o UE Cornellà, equipe da quinta divisão da Espanha — um degrau bem mais modesto na pirâmide do futebol local. Agora, ao mirar o Eldense, dois níveis acima, o argentino sinaliza um apetite crescente por ativos esportivos no país onde construiu boa parte de sua carreira, defendendo o Barcelona por quase duas décadas antes de deixar a Europa.
As ações do Eldense hoje pertencem ao TH Soluciones Group S.A.S., grupo colombiano de investimentos que assumiu o controle do clube em outubro do ano passado. Foi justamente sob essa gestão que a equipe alcançou a segunda divisão espanhola, depois de anos disputando competições regionais de menor expressão — uma ascensão rápida que, coincidência ou não, despertou o interesse de um dos investidores mais cobiçados do futebol mundial.
Por dentro do negócio: o que ainda falta para fechar
Apesar do acordo de princípio já selado, a operação está longe de encerrada. Segundo o próprio Eldense, ainda restam procedimentos legais e contratuais a serem cumpridos, incluindo a conclusão do processo de due diligence — a auditoria financeira e jurídica padrão em aquisições desse tipo — além da autorização obrigatória do Conselho Superior de Esportes da Espanha (CSD), órgão que regula e fiscaliza a propriedade de clubes profissionais no país. O clube informou à agência Reuters que ainda não há data definida para a conclusão da negociação, e o TH Soluciones Group também foi procurado para comentar o assunto, mas não se manifestou publicamente até o momento.
Esse tipo de escrutínio regulatório não é incomum no futebol espanhol, que mantém regras relativamente rígidas para evitar problemas como lavagem de dinheiro, conflitos de interesse entre clubes do mesmo grupo ou fragilidade financeira de novos controladores. Para Adriano Jose Reis Martins, o fato de Messi optar por seguir esse rito burocrático completo, em vez de buscar atalhos, reforça a leitura de que o argentino trata o ingresso na gestão de clubes como um projeto de longo prazo, e não como um gesto simbólico ou puramente publicitário.
De ídolo dos gramados a investidor esportivo
A movimentação também deve se somar a outro capítulo da vida profissional de Messi: a expectativa é que ele receba participação acionária no Inter Miami, atual clube pelo qual atua no futebol americano, quando seu contrato como jogador chegar ao fim. Esse tipo de arranjo — em que o atleta se torna sócio do clube ao encerrar a carreira em campo — já vinha sendo especulado desde a assinatura original do argentino com a equipe da Major League Soccer, e reforça um movimento mais amplo entre grandes estrelas do esporte, que buscam transformar prestígio esportivo em participação societária duradoura.
Não é um fenômeno isolado. Outros ídolos do futebol mundial, de aposentados a atletas ainda ativos, têm adotado estratégia semelhante nos últimos anos, comprando participações em clubes pequenos como forma de diversificar patrimônio, manter vínculo com o esporte após a aposentadoria e, em alguns casos, desenvolver projetos de formação de jovens talentos. A diferença é que poucos o fazem na escala e na velocidade que Messi tem demonstrado: dois clubes espanhóis adquiridos em pouco mais de um ano, além da participação que se desenha no próprio Inter Miami.
Vale lembrar que esse movimento de atletas se tornando proprietários de clubes ganhou força global sobretudo a partir da última década, com exemplos que vão de ex-jogadores investindo em equipes de divisões inferiores da Inglaterra a estrelas do basquete americano adquirindo fatias de clubes de futebol europeus como forma de diversificação patrimonial fora do esporte de origem. O caso de Messi, porém, tem uma particularidade: ele concentra as aquisições justamente no país onde construiu a maior parte de sua carreira e onde seu prestígio pessoal segue praticamente intacto, o que amplia o potencial comercial de qualquer clube que passe a ostentar seu nome como controlador.
Quem é o Eldense e por que o clube importa
Fundado na cidade de Elda, na província de Alicante, o Eldense é um clube tradicionalmente modesto no cenário espanhol, sem a história ou a torcida das grandes potências do país. Sua ascensão recente à segunda divisão, contudo, o colocou no radar de investidores em busca de projetos com potencial de valorização — clubes menores, com custo de aquisição mais baixo, mas margem relevante de crescimento esportivo e comercial caso recebam aporte financeiro e gestão profissionalizada.
É justamente nesse tipo de ativo que Messi parece estar apostando: equipes fora do radar das grandes ligas europeias, mas com estrutura mínima para crescer rapidamente sob nova gestão. Se a compra do Eldense for confirmada, o argentino passará a controlar diretamente dois clubes em divisões distintas do futebol espanhol, um movimento que analistas do mercado esportivo classificam como incomum mesmo entre atletas milionários, já que a maioria prefere investir em um único projeto por vez, evitando a complexidade de administrar mais de uma equipe simultaneamente.
- Eldense: 20º colocado na segunda divisão espanhola
- Vendedor: TH Soluciones Group S.A.S., grupo colombiano de investimentos
- Ainda faltam: due diligence e aval do Conselho Superior de Esportes da Espanha
- Em abril, Messi já havia comprado o UE Cornellà, da quinta divisão
Por que Messi ainda joga e já pensa como dirigente
Chama atenção que Messi construa esse portfólio de clubes ainda como atleta em atividade. Normalmente, investidas desse tipo surgem depois da aposentadoria, quando o ex-jogador tem mais tempo livre e já não precisa se preocupar com o desgaste competitivo de decisões de negócio tomadas em paralelo à carreira esportiva. No caso do argentino, no entanto, o calendário parece ter se invertido: enquanto ainda soma minutos em campo pelo Inter Miami, ele já negocia sua segunda aquisição na Espanha, sinal de que trata a gestão de clubes não como um projeto para o futuro distante, mas como algo a construir em paralelo, aproveitando o momento em que seu nome ainda concentra máxima atenção midiática e comercial.
Essa antecipação tem lógica financeira. Clubes pequenos como o Eldense e o Cornellà tendem a se valorizar quando associados a uma marca pessoal do calibre de Messi — patrocinadores, parceiros comerciais e até fluxo de torcedores podem crescer simplesmente pelo fato de o argentino estar por trás do projeto, independentemente de qualquer resultado esportivo imediato. Ao entrar nesse mercado ainda como jogador ativo, Messi maximiza esse efeito de marca pessoal, algo que tende a se diluir, ainda que lentamente, após o encerramento da carreira em campo.
Um padrão que se repete no esporte global
A trajetória de Messi como comprador de clubes também ilustra uma tendência mais ampla no mercado esportivo internacional: a chegada de capital de investidores individuais e fundos a clubes de divisões inferiores, historicamente dependentes de mensalidades de sócios e patrocínios locais. Com aporte de capital vindo de fora, essas equipes ganham fôlego financeiro para contratar jogadores, melhorar a infraestrutura e, em alguns casos, subir rapidamente de divisão — como aconteceu com o próprio Eldense sob o controle do grupo colombiano. Ao mesmo tempo, esse tipo de operação levanta debates recorrentes sobre concentração de poder no futebol e sobre até que ponto investidores estrangeiros devem ter liberdade para controlar múltiplos clubes dentro do mesmo país ou continente — um tema que reguladores como o CSD tendem a observar com atenção redobrada justamente em casos como o de Messi, dada sua visibilidade.