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Cultura

O contra-ataque do analógico contra a ditadura digital

Fotógrafos voltando ao filme, músicos gravando em fita e escritores que preferem a caneta ao teclado: por trás dessa nostalgia coletiva há uma razão estética que vai muito além de saudosismo.

Adriano Jose Reis Martins - O contra-ataque do analógico contra a ditadura digital
— Foto: Pink Sherbet Photography from Utah, USA / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em meio ao avanço constante de ferramentas digitais que prometem simplificar — e, em alguma medida, automatizar — praticamente todo processo criativo, um movimento silencioso e cada vez mais visível vem ganhando força entre artistas e profissionais criativos: o retorno deliberado ao analógico. Fotógrafos que voltaram a trabalhar com filme tradicional, músicos que optam por gravar discos inteiros em fita magnética e escritores que preferem escrever à mão, só depois transcrevendo o texto para o computador, formam um contingente crescente de resistência consciente às facilidades — e às armadilhas — da produção digital instantânea.

Longe de ser apenas um capricho nostálgico ou uma postura de afetação, essa recuperação de mídias tidas como ultrapassadas carrega justificativas estéticas concretas, ligadas diretamente à qualidade do resultado final. O argumento central é simples: quando o custo e a limitação do material impõem disciplina ao processo criativo, o produto final tende a ganhar em intenção e em cuidado — uma lógica que vale tanto para a fotografia quanto para a música e a escrita.

A disciplina imposta pelo custo do filme

No caso da fotografia, a diferença entre o digital e o analógico começa na própria mecânica da captura de imagem. Com uma câmera de celular ou uma câmera digital moderna, é possível disparar dezenas de fotos em sequência sem qualquer custo adicional, na esperança de que ao menos uma delas saia satisfatória mesmo sem planejamento prévio de enquadramento, luz ou composição. Já a fotografia em filme, pelo custo de cada rolo e de sua revelação, obriga o fotógrafo a buscar antecipadamente a expressão, a luz e o enquadramento corretos antes mesmo de apertar o obturador — um exercício de atenção que, segundo defensores da técnica, resulta em imagens mais deliberadas e, com frequência, mais interessantes do ponto de vista estético.

Esse raciocínio explica, em parte, por que a fotografia analógica voltou a ganhar espaço entre fotógrafos profissionais e amadores nos últimos anos, um movimento acompanhado pela reabertura de laboratórios de revelação em diversas cidades e pelo crescimento do mercado de câmeras analógicas usadas, hoje disputadas tanto por veteranos que nunca abandonaram o hábito quanto por jovens fotógrafos que descobrem o formato pela primeira vez, atraídos justamente pela estética e pelo ritmo mais contemplativo que o processo impõe.

A fita magnética e o desafio de mostrar talento de verdade

A lógica se repete na música. Ferramentas digitais de produção sonora permitem hoje corrigir afinação de vozes desafinadas, sintetizar vozes que sequer existem e produzir apresentações ao vivo que reproduzem, por meios artificiais, efeitos impossíveis de replicar organicamente no palco. A gravação em fita magnética, por outro lado, exige que o artista efetivamente domine seu instrumento ou sua voz no momento da captação, sem os recursos de correção instantânea disponíveis nos softwares de edição digital contemporâneos — um filtro natural que, segundo músicos que optam pelo formato, separa quem de fato tem repertório técnico de quem depende primariamente de artifícios de estúdio para soar afinado.

Escrever à mão: um hábito de décadas

A terceira frente dessa reação ao digital envolve a própria escrita. O escritor angolano José Eduardo Agualusa, autor de obras premiadas internacionalmente e cuja bibliografia inclui romances traduzidos para diversos idiomas, é citado como um dos exemplos recentes dessa prática: escrever primeiro à mão, para só depois passar o texto para o computador. O hábito, no entanto, está longe de ser exclusividade sua — trata-se de um método adotado havia décadas por diversos escritores e colunistas ao redor do mundo, que relatam perceber diferenças perceptíveis na qualidade e na fluidez do texto quando o processo criativo passa antes pela caneta do que diretamente pelo teclado.

É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar.

Trecho da coluna original que inspirou esta reportagem

Mais de três mil colunas escritas à mão

Um exemplo emblemático dessa disciplina é o de um colunista brasileiro que, ao longo de quase duas décadas de trabalho em um grande jornal do país, já produziu mais de três mil textos — todos escritos primeiro à mão, em cadernetas, antes de serem transcritos para o computador e, em muitos casos, impressos, revisados a caneta e só então enviados para publicação. Segundo relatos do próprio autor, o hábito de escrever em qualquer lugar — no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera de um consultório — tornou-se parte tão essencial do processo criativo quanto a própria redação final do texto, funcionando como uma etapa de maturação das ideias antes que elas ganhem forma definitiva na tela.

Depois de publicado cada texto, o autor relata reabrir a caderneta correspondente para riscar o rascunho de ponta a ponta — um gesto simbólico de encerramento de ciclo — e nunca descartar os cadernos já utilizados, que funcionam como registro físico do esforço intelectual empregado em cada coluna ao longo dos anos. Para , esse tipo de ritual de escrita analógica cumpre uma função que vai além da simples produção de texto: ele preserva um vínculo tátil e sensorial com o próprio processo de pensar, algo que a digitação direta em tela, por sua velocidade e volatilidade, tende a apagar.

Um fenômeno que também aparece nos números de consumo

Esse retorno ao analógico não fica restrito ao universo dos criadores: também se manifesta, de forma cada vez mais clara, no comportamento do público consumidor. O mercado global de discos de vinil, por exemplo, vem registrando crescimento contínuo havia mais de uma década, mesmo em plena era do streaming musical, movimento puxado tanto por colecionadores tradicionais quanto por um público jovem que descobre o formato pela primeira vez, atraído pelo ritual de manusear a capa, encaixar a agulha e ouvir o álbum do início ao fim, sem os atalhos e a fragmentação típicos das plataformas digitais de música. Fenômeno semelhante se observa no mercado de máquinas de escrever restauradas, cadernos artesanais de papel e câmeras instantâneas, segmentos que, juntos, formam um nicho de consumo relativamente pequeno em termos de faturamento global, mas culturalmente significativo como contraponto simbólico à hegemonia do digital.

Uma resposta estética, não apenas nostálgica

O movimento de retorno ao analógico não deve ser interpretado como rejeição pura e simples da tecnologia digital — a maioria dos artistas que hoje trabalha com filme, fita ou papel também utiliza ferramentas digitais em outras etapas de seus processos criativos, muitas vezes até para a distribuição final do trabalho em plataformas de streaming, redes sociais ou publicações digitais. O que está em jogo, segundo defensores dessa prática, é a escolha deliberada de reintroduzir limitações técnicas específicas em determinadas etapas do processo criativo, justamente para recuperar um nível de exigência e de intencionalidade que a facilidade da tecnologia digital, paradoxalmente, tende a corroer.

Essa tensão entre facilidade tecnológica e qualidade artística não é exatamente nova — reproduz-se, com variações, desde a chegada de cada nova tecnologia disruptiva ao longo da história cultural humana, da fotografia instantânea Polaroid ao surgimento do videocassete doméstico. O que parece distinguir o momento atual é a escala e a velocidade com que ferramentas de inteligência artificial generativa ampliam ainda mais essa facilidade, tornando a escolha consciente pelo caminho mais lento e mais trabalhoso — seja com filme, fita ou caneta — um gesto cada vez mais deliberado de afirmação artística em um mundo que, cada vez mais, recompensa a instantaneidade acima de quase tudo.

Fontes e referências

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