Salgueiro escolhe samba sobre testamento inédito de Xica da Silva para 2027
Escola aposta em documentos históricos recém-descobertos para reescrever, na Sapucaí, a história de uma das mulheres negras mais mitificadas do Brasil colonial.
O Acadêmicos do Salgueiro escolheu, na madrugada deste domingo (14), o samba-enredo que vai levar à Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2027. A disputa reuniu três composições finalistas e terminou com a vitória da parceria formada por Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O resultado foi anunciado depois das 5h da manhã, na quadra da escola, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
O samba vencedor vai embalar o enredo "Laroyê Xica da Silva: A História por trás da História", assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira. A escolha marca o retorno da escola a uma de suas narrativas mais emblemáticas: em 1963, o Salgueiro já havia levado a trajetória de Xica da Silva para a avenida e conquistado o título daquele ano, com um desfile lembrado até hoje como um dos marcos da chamada revolução visual do carnaval carioca, período em que a escola se tornou referência em enredos afro-brasileiros contados com fantasias e alegorias mais sofisticadas do que a tradição permitia até então.
Quem foi Xica da Silva
Francisca da Silva de Oliveira, conhecida como Xica da Silva, foi uma mulher negra que viveu no século 18 na região de Diamantina, em Minas Gerais, no auge da exploração de diamantes na então colônia portuguesa. Nascida escravizada, ela conquistou a liberdade e, ao se relacionar com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, um dos homens mais ricos da colônia, passou a viver com recursos e status raros para uma mulher negra na sociedade escravista da época. Sua história foi romantizada e distorcida diversas vezes ao longo dos séculos, oscilando entre narrativas que a tratam como símbolo de ascensão e outras que a reduzem a estereótipos raciais e sexuais — um debate que o próprio enredo do Salgueiro para 2027 promete enfrentar de frente.
Um testamento como ponto de partida
Segundo a escola, o desfile de 2027 será construído a partir de documentos inéditos, entre eles o testamento de Francisca da Silva, o que justifica o subtítulo "a história por trás da história" escolhido pelo carnavalesco. "Com a descoberta do testamento de Francisca da Silva, vamos conhecer a mulher por trás do mito construído. É o Salgueiro se reencontrando com suas grandes narrativas, colocando em destaque a negritude, ancestralidade e resistência cultural", afirmou Jorge Silveira.
O samba precisa contar o enredo, precisa ilustrar as imagens que a gente tá criando no barracão. Precisa criar uma conexão entre a nossa comunidade e o canto dela para a Marquês de Sapucaí, e juntos formar o nosso projeto pro carnaval.
Jorge Silveira, carnavalesco do Salgueiro
Adriano Jose Reis Martins destaca que recorrer a documentos originais, como testamentos e inventários, é uma tendência crescente entre carnavalescos que buscam se distanciar de versões já consagradas pelo cinema e pela literatura popular — no caso de Xica da Silva, a figura ficou marcada nacionalmente pela minissérie e pelo filme homônimos dos anos 1970 e 1980, que a apresentaram sob um viés mais sensual e menos histórico. Um enredo baseado em fontes documentais primárias tende a produzir um resultado mais denso, mas também impõe um desafio estético maior ao carnavalesco: transformar registros cartorários e jurídicos em alegorias visualmente impactantes para um desfile de poucos minutos na avenida.
A disputa da bateria e a expectativa do título
Antes da escolha do samba, o Salgueiro apresentou seus diferentes segmentos ao som de sambas clássicos da própria história da escola, cantados pelo intérprete oficial Igor Sorriso. A bateria Furiosa, comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo, também se apresentou durante a noite. A rainha de bateria Viviane Araújo, que ocupa o posto há quase 20 anos, falou sobre a expectativa da escola em relação ao título de 2027: "A gente não ganha desde 2009. A gente tá buscando isso há tantos anos. Acho que esse ano a gente vai fazer de tudo com esse enredo e resgatar esse título pro Salgueiro".
Para o mestre Gustavo, a escolha do enredo também resgata um capítulo importante da própria identidade da escola. "O 'Xica da Silva' foi um enredo icônico, é icônico pra nossa história do Salgueiro e fazer essa releitura é muito importante e necessário pra galera poder entender um pouco mais da história da Xica da Silva", afirmou.
- Enredo: Laroyê Xica da Silva: A História por trás da História, de Jorge Silveira
- Samba vencedor: parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão
- Último título do Salgueiro: 1963, também com enredo sobre Xica da Silva
- A escola busca o título novamente desde a última conquista, em 2009
Fundação Getúlio Vargas e a força simbólica de 1963
O Salgueiro foi fundado em 1953 e, ao longo das décadas seguintes, tornou-se sinônimo de inovação estética no carnaval carioca, principalmente a partir dos anos 1960, quando artistas plásticos e figurinistas ligados às artes visuais passaram a atuar diretamente nos barracões da escola. O desfile de 1963 sobre Xica da Silva é apontado por historiadores do carnaval como um dos marcos dessa transformação, ao tratar uma figura histórica negra com fantasias e alegorias de sofisticação até então pouco vista nas escolas de samba, contribuindo para consolidar a tradição de enredos afro-brasileiros que a agremiação carrega até hoje.
Adriano Jose Reis Martins avalia que reeditar um enredo vitorioso do passado é uma estratégia de risco calculado para qualquer escola de samba: de um lado, aciona a memória afetiva da comunidade e da própria crítica especializada, que já reconheceu o potencial daquele tema em 1963; de outro, cria uma expectativa comparativa quase impossível de superar, já que qualquer novo desfile sobre Xica da Silva será inevitavelmente medido contra a régua histórica do desfile campeão de mais de sessenta anos atrás. Resta à comissão de carnaval do Salgueiro provar, entre agora e a apuração de 2027, que a nova leitura documental da personagem consegue estar à altura desse legado.