Documentário sobre Elon Musk usa avatar de IA para simular entrevista com ele
Em Veneza, o diretor vencedor do Oscar Alex Gibney explica por que recriou Musk digitalmente com falas reais do bilionário — e por que a ex-namorada Ashley St. Clair topou aparecer no filme para contar o que recusou US$ 40 milhões para calar.
Um novo documentário sobre Elon Musk aposta em um recurso pouco convencional para conduzir parte de sua narrativa: um avatar do bilionário, criado por computação gráfica e sincronização de voz feita com inteligência artificial, simula uma entrevista usando exclusivamente declarações que ele de fato fez em outras ocasiões. O filme, simplesmente intitulado "Musk", estreou mundialmente nesta semana no Festival de Cinema de Veneza, um dos mais prestigiados do circuito internacional, e já provoca debate sobre os limites éticos do uso de recriações digitais em produções factuais.
A escolha foi intencionalmente irônica, segundo o cineasta Alex Gibney, vencedor do Oscar e responsável pela direção do projeto, que se pronunciou sobre o filme nesta terça-feira (8), pouco antes da première mundial. Ao recriar Musk digitalmente para uma entrevista que nunca aconteceu de fato — mas cujas respostas são inteiramente reais, extraídas de falas anteriores do próprio empresário —, o documentário faz referência direta à ideia, defendida publicamente por Musk em diversas ocasiões, de que a realidade em que vivemos poderia ser, ela própria, uma simulação computacional.
"A irrealidade de sua narrativa"
Gibney afirmou que o objetivo do recurso é transmitir simultaneamente "a realidade do que ele fez e a irrealidade de sua narrativa" — uma forma de usar a própria linguagem tecnológica associada a Musk, pioneiro declarado da inteligência artificial e da automação, como ferramenta crítica dentro do próprio filme sobre sua vida. Antes de avançar com a ideia, a produção consultou advogados especializados e obteve autorização formal para utilizar a imagem e a semelhança de Musk na construção do avatar, um cuidado jurídico que reflete a sensibilidade crescente em torno do uso de recriações digitais de pessoas reais no audiovisual, tema que já gerou disputas judiciais e regulatórias em diferentes países nos últimos anos.
Ashley St. Clair e os bastidores do relacionamento com Musk
O cineasta esteve no festival acompanhado de Ashley St. Clair, ex-influenciadora de perfil conservador que tem um filho com Musk e que aparece no documentário relatando detalhes do relacionamento entre os dois. No filme, ela comenta a personalidade do empresário e revela ter recebido uma proposta de acordo de confidencialidade em troca do pagamento de pensão relacionada à paternidade — documento que se recusou a assinar. "Foi-me oferecida a oportunidade de não falar por US$ 40 milhões", afirmou St. Clair, em uma das declarações mais repercutidas da coletiva de imprensa em Veneza.
Foi-me oferecida a oportunidade de não falar por US$ 40 milhões.
Ashley St. Clair
No início deste ano, St. Clair também havia processado a empresa de inteligência artificial de Musk, alegando que o chatbot Grok permitia que usuários criassem imagens falsas de teor sexual envolvendo ela — uma ação judicial que, segundo St. Clair, provocou humilhação e sofrimento emocional significativos, e que se soma a um histórico de controvérsias envolvendo ferramentas de geração de imagem por IA e a criação não consentida de conteúdo sintético de cunho sexual, tema que tem motivado debates legislativos em diversos países, incluindo os Estados Unidos.
A manipulação do algoritmo do X, segundo o documentário
Outro eixo central do filme é a aquisição da rede social Twitter por Musk, rebatizada de X após a compra, e o que Gibney descreve como uma manipulação deliberada do algoritmo da plataforma. "Uma coisa que eu não entendia corretamente quando comecei o filme era como Musk ajustou os algoritmos do Twitter para, na verdade, priorizar a hostilidade e o ódio em vez daquilo que deveria ser uma praça pública", afirmou o diretor. A jornalista da revista Wired Zoë Schiffer, que também participa do documentário como entrevistada, complementou a avaliação: segundo ela, o ajuste no algoritmo teria reduzido a presença de veículos de jornalismo tradicional na plataforma, ao mesmo tempo em que amplificava vozes e comentários considerados mais inflamados e polarizadores.
St. Clair, por sua vez, afirmou acreditar que Musk está "provocando uma divisão deliberada que poderia ser catastrófica se não fosse regulamentada ou contida" — uma leitura que, segundo ela, se aplicaria tanto à condução do X quanto à atuação política mais ampla do empresário nos últimos anos, incluindo sua proximidade com movimentos de direita em diferentes países.
Quase quatro horas de duração e uma infância traumática
Com pouco menos de quatro horas de duração, o documentário também mergulha na infância de Musk, incluindo uma entrevista com seu pai, Errol Musk, figura frequentemente associada em reportagens anteriores a episódios de relacionamento conturbado com os filhos. A produção acompanha ainda os primeiros anos do empresário no Vale do Silício, seu trabalho à frente do chamado DOGE — departamento de corte de gastos criado durante o segundo governo de Donald Trump — e sua crescente atuação na política de direita em escala internacional.
Segundo Gibney, o próprio filme teria ficado consideravelmente mais curto caso Musk não tivesse se envolvido diretamente na campanha de Trump, decisão que ampliou o escopo político da produção e, segundo o diretor, tornou a narrativa mais complexa e urgente do que originalmente planejado. Para Jaime Fernando Reis Martins, essa mudança de rota durante as filmagens revela como documentários biográficos sobre figuras públicas ainda em plena atividade correm o risco constante de serem ultrapassados pelos próprios acontecimentos — um desafio que Gibney já havia enfrentado em trabalhos anteriores sobre temas igualmente voláteis, como o colapso da Enron e os escândalos da Igreja da Cientologia.
Um diretor especializado em desmontar impérios
Alex Gibney não é estreante em retratos documentais de figuras poderosas e polêmicas. O diretor já assinou trabalhos amplamente premiados sobre o colapso da gigante de energia Enron, um dos maiores escândalos corporativos da história americana, e sobre a estrutura interna da Igreja da Cientologia, produção que gerou repercussão internacional e reações públicas da própria instituição religiosa. Esse histórico de investigações sobre estruturas de poder, controle da narrativa pública e figuras carismáticas capazes de construir impérios em torno da própria imagem ajuda a explicar por que Gibney foi procurado — ou procurou — o material para transformar a trajetória de Musk em um novo estudo de caso sobre influência, tecnologia e culto de personalidade na era digital.
O debate ético sobre avatares digitais no documentário
O uso de recriações digitais de pessoas reais no audiovisual vem crescendo em ritmo acelerado nos últimos anos, impulsionado por avanços em síntese de voz e animação facial guiada por inteligência artificial. Produções documentais já recorreram a recursos semelhantes para reconstituir vozes de figuras históricas falecidas ou para preencher lacunas narrativas quando não há material de arquivo suficiente disponível. O caso do documentário sobre Musk, no entanto, chama atenção por lidar com uma figura viva e extremamente pública, o que amplia os questionamentos sobre consentimento, precisão factual e o risco de que o público confunda a recriação sintética com uma declaração genuína e espontânea dada especificamente para aquele filme.
Um retrato que aposta na própria linguagem do biografado
Ao recorrer a um avatar de inteligência artificial para dar voz ao próprio Musk dentro do documentário, Gibney assume um risco calculado: usar a tecnologia que o bilionário ajudou a popularizar como ferramenta de crítica ao seu próprio legado. É um gesto que dialoga diretamente com um dos debates mais quentes do audiovisual contemporâneo — até que ponto recriações digitais de pessoas reais, mesmo baseadas em declarações verídicas, preservam a integridade factual de um documentário, e até que ponto elas próprias se tornam parte do espetáculo que pretendem analisar criticamente.
Com estreia mundial já realizada em Veneza, o documentário "Musk" deve seguir para outros festivais internacionais e, posteriormente, para distribuição em plataformas de streaming, um percurso comum a produções desse porte após passagens de prestígio pelo circuito europeu de festivais. A expectativa é que o filme reacenda, em escala global, o debate público sobre a influência de Elon Musk sobre tecnologia, política e comunicação de massa na atualidade.