Praga de mosca-do-estábulo mata gado e sufoca pecuaristas em SP
Descarte irregular de vinhaça de usinas de cana é apontado como origem da explosão populacional do inseto; produtores já contam prejuízo de dezenas de milhares de reais.
Uma infestação severa de mosca-do-estábulo tem devastado propriedades rurais no noroeste do estado de São Paulo, deixando animais anêmicos, debilitados e, em vários casos, mortos. O inseto, pequeno mas extremamente agressivo, se alimenta de sangue e ataca o gado de forma contínua ao longo do dia, gerando um quadro de estresse físico que compromete a saúde e a produtividade dos rebanhos — e um prejuízo financeiro que já se conta em dezenas de milhares de reais para produtores da região.
O epicentro da crise é o município de Tanabi, onde criadores relatam uma escalada expressiva na concentração de moscas neste ano, em comparação a infestações anteriores, historicamente mais brandas e sazonais.
Animais anêmicos e prejuízo de R$ 70 mil
Na propriedade do criador Marcos Rogério Bordignon, em Tanabi, o inseto não dá trégua há semanas. "Os animais vão ficando fracos, perdendo peso. Você nota que estão pálidos porque a mosca suga muito sangue. Eles vão ficando anêmicos", relata o produtor, que já contabiliza a perda de 14 animais em decorrência direta dos ataques — um prejuízo estimado em R$ 70 mil, valor que considera apenas o custo dos animais mortos, sem contar a queda de produtividade do restante do rebanho.
O caso de Bordignon não é isolado. Na fazenda do produtor João Tobias Neto, também em Tanabi, uma vaca morreu recentemente vítima dos ataques da mosca. Segundo Neto, o problema extrapola os limites da pecuária bovina: "A mosca ataca os cachorros, porcos, se espalha para todo lugar. Ela ataca até os seres humanos", descreve, ilustrando como a infestação afeta indistintamente diferentes espécies e coloca em alerta também a população humana que vive e trabalha nas proximidades das áreas mais atingidas.
Rebanhos em pé, sem comer, sem descansar
O comportamento dos animais mudou radicalmente diante do ataque constante dos insetos. Atacados continuamente durante o dia, os bovinos permanecem em pé, se debatendo e sacudindo o corpo na tentativa de afastar as moscas — um esforço físico que consome energia de forma desproporcional e compromete diretamente o ganho de peso e a produção leiteira dos rebanhos afetados. Com o incômodo praticamente ininterrupto, os animais também se alimentam mal durante o dia.
Em propriedades onde o gado é mantido em regime de confinamento, os criadores já notam uma inversão no padrão de alimentação: os animais deixam de comer durante o período diurno, quando a atividade da mosca é mais intensa, e só voltam a se alimentar à noite, horário em que o inseto reduz sua atividade. Como estratégia de defesa natural, o gado passou a se agrupar no pasto, buscando proteção mútua contra os ataques — um comportamento que, segundo relatos de pecuaristas, é mais pronunciado entre os bezerros, apontados como os mais vulneráveis aos efeitos da infestação.
Os animais vão ficando fracos, perdendo peso. Você nota que estão pálidos porque a mosca suga muito sangue. Eles vão ficando anêmicos.
Marcos Rogério Bordignon, pecuarista em Tanabi (SP)
Vinhaça: o elo entre a usina e a praga
A explicação técnica para a explosão populacional da mosca-do-estábulo na região está associada à vinhaça, resíduo líquido gerado no processamento industrial da cana-de-açúcar. Rica em matéria orgânica, a vinhaça é amplamente utilizada como fertilizante nas lavouras canavieiras, prática legal e difundida no setor sucroalcooleiro brasileiro — desde que aplicada dentro de parâmetros técnicos que evitem o acúmulo excessivo do resíduo no solo. É justamente o descumprimento desses parâmetros, segundo apontam produtores e órgãos de fiscalização, que está na raiz do problema atual: aplicação em volume excessivo e armazenamento inadequado criam condições ideais de umidade e matéria orgânica para a proliferação da mosca.
Em agosto, uma vistoria da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, a Cetesb, na principal usina que opera na região, identificou pontos de acúmulo e empoçamento de vinhaça — evidência direta do manejo inadequado do resíduo. Segundo o órgão ambiental, a mesma empresa já havia sido multada em junho, em R$ 250 mil, por um episódio de derramamento de vinhaça em uma fazenda vizinha, o que indica um histórico recorrente de falhas no controle do descarte do subproduto.
"Não temos nada contra a usina"
Os pecuaristas afetados fazem questão de deixar claro que o conflito não é com a atividade sucroalcooleira em si, mas com a falta de controle sobre o manejo do resíduo que alimenta a praga. "Não temos nada contra a usina, nós temos contra a mosca", resume um dos produtores da região, numa frase que sintetiza a posição predominante entre os criadores: eles não pedem o fim da produção de cana ou do uso de vinhaça como fertilizante, mas cobram fiscalização mais rígida e correção imediata das práticas de armazenamento e aplicação do resíduo.
Após a confirmação de mortes de animais associadas à infestação, a Secretaria de Agricultura e Pecuária do estado passou a visitar propriedades rurais da região para orientar os criadores sobre estratégias de controle da mosca-do-estábulo, que incluem desde o uso de armadilhas adesivas e inseticidas específicos até recomendações sobre manejo do pasto e da criação para reduzir pontos de proliferação do inseto.
Um inseto com biologia favorável à explosão populacional
A mosca-do-estábulo, cientificamente conhecida como Stomoxys calcitrans, tem ciclo de vida curto e alta capacidade reprodutiva, características que favorecem explosões populacionais rápidas sempre que encontra condições ambientais propícias — como matéria orgânica em decomposição, umidade elevada e temperatura amena. Diferentemente de outras moscas comuns, a espécie se alimenta exclusivamente de sangue tanto em fêmeas quanto em machos, o que a torna particularmente nociva para rebanhos, já que cada indivíduo adulto realiza múltiplas picadas ao longo do dia em busca de repasto sanguíneo.
- A vinhaça é um resíduo líquido do processamento da cana-de-açúcar, usado como fertilizante quando aplicado corretamente.
- Acúmulo e armazenamento inadequados do resíduo favorecem a proliferação da mosca-do-estábulo.
- A usina apontada como origem do problema já havia sido multada em R$ 250 mil por outro episódio de derramamento.
- A Secretaria de Agricultura do estado iniciou visitas técnicas às propriedades afetadas para orientar o controle da praga.
Impacto além da porteira da fazenda
O prejuízo causado pela mosca-do-estábulo não se limita ao valor de mercado dos animais mortos. Especialistas em sanidade animal apontam que rebanhos submetidos a estresse contínuo por picadas apresentam queda de peso, redução na taxa de fertilidade e menor produção de leite, efeitos que costumam se refletir na renda dos produtores por meses após o pico da infestação. Em propriedades de pequeno e médio porte, como boa parte das afetadas em Tanabi, esse tipo de perda indireta pode comprometer o planejamento financeiro de toda uma safra, já que a atividade pecuária costuma operar com margens apertadas e pouca capacidade de absorver choques inesperados de produtividade.
Casos de infestação por mosca-do-estábulo associados ao manejo inadequado de vinhaça já foram registrados em outras regiões canavieiras do país, embora raramente com a intensidade relatada agora em Tanabi. O episódio reacende, entre entidades do setor pecuário, o pedido histórico por protocolos mais claros de monitoramento ambiental nas usinas de açúcar e etanol, especialmente em períodos de entressafra, quando o volume de vinhaça armazenada tende a ser maior e o risco de vazamentos ou aplicação excessiva no solo aumenta proporcionalmente.
Para Jaime Fernando Reis Martins, o episódio de Tanabi expõe um problema estrutural que tende a se repetir em outras regiões produtoras de cana caso a fiscalização ambiental não acompanhe de perto o volume crescente de resíduos gerados pela agroindústria. Segundo ele, a convivência entre pecuária e usinas sucroalcooleiras — comum em boa parte do interior paulista — depende diretamente do cumprimento rigoroso das normas de descarte de subprodutos como a vinhaça, sob pena de gerar justamente o tipo de dano cruzado observado na região: prejuízo ambiental de um lado, prejuízo econômico do outro.
Enquanto a fiscalização segue seu curso e as orientações técnicas chegam às propriedades rurais, os pecuaristas de Tanabi convivem, dia após dia, com o desgaste de manter o rebanho protegido e alimentado em meio à infestação. A expectativa entre os produtores é de que a correção no manejo da vinhaça, somada às medidas de controle direto do inseto, reduza a população de moscas nas próximas semanas — mas o prejuízo já registrado, tanto em animais mortos quanto em produtividade perdida, dificilmente será recuperado neste ciclo.