Pular para o conteúdo
Saúde

Paciente viaja 600 km de avião e helicóptero para transplante

Morador de Foz do Iguaçu precisou de uma operação logística entre aviação comercial e a Polícia Rodoviária Federal para chegar a tempo de receber um novo fígado.

Adriano Jose Reis Martins - Paciente viaja 600 km de avião e helicóptero para transplante
— Foto: Julian Herzog (Website) / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Uma corrida contra o tempo levou Azuil Gomes Teotonio, morador de Foz do Iguaçu, a percorrer mais de 600 quilômetros combinando avião comercial e helicóptero para chegar a tempo ao Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, e receber um transplante de fígado. O paciente aguardava na fila de transplantes desde 2025 e foi chamado para o procedimento no dia 24 de agosto, depois que um órgão compatível, captado em Maringá, foi destinado a ele.

A cirurgia durou 2 horas e 38 minutos, e Azuil recebeu alta hospitalar apenas seis dias depois — um desfecho rápido e bem-sucedido que só foi possível graças a uma articulação logística envolvendo diferentes órgãos públicos de saúde e segurança do Paraná, mobilizados em questão de horas para vencer a distância entre a cidade do paciente e o hospital onde o transplante seria realizado.

Uma ligação inesperada muda tudo

A jornada de Azuil começou de forma abrupta, com uma ligação que a família não esperava naquele momento. O fígado que originalmente seria destinado a outro paciente não pôde ser transplantado nele por razões médicas, e o órgão acabou sendo redirecionado a Azuil, que estava na fila de espera havia mais de um ano. "A equipe entrou em contato comigo avisando que tinha chegado o momento do meu pai fazer o transplante. Mas o transporte não poderia ser feito de carro devido à demora, então ele foi de avião até Curitiba", explicou Juliana Teotonio Keller, filha do paciente.

A urgência do transporte não é um detalhe menor nesse tipo de cirurgia: órgãos captados para transplante têm uma janela de viabilidade limitada fora do corpo do doador, e cada hora adicional de deslocamento reduz as chances de sucesso do procedimento. Diante da distância entre Foz do Iguaçu, no extremo oeste do Paraná, e Campina Grande do Sul, na região metropolitana da capital, o deslocamento terrestre estava simplesmente descartado como opção viável dentro do prazo necessário.

Do aeroporto ao hospital, por ar

Azuil embarcou em um voo comercial com origem em Foz do Iguaçu e destino ao Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. O planejamento da viagem, porém, exigia mais do que apenas chegar à capital paranaense: era preciso estar no Hospital Angelina Caron praticamente no mesmo horário da chegada do voo, o que tornava inviável um deslocamento de carro entre o aeroporto e o hospital — trajeto que levaria cerca de 40 minutos, a depender das condições de trânsito, tempo considerado incompatível com a urgência do procedimento.

Diante desse impasse, a família recorreu à Diretoria de Urgência e Emergência de Foz do Iguaçu, conhecida pela sigla Diue, em busca de apoio para viabilizar o transporte. "Entrei em contato com um enfermeiro pedindo ajuda para viabilizar o transporte do meu tio do aeroporto até o hospital. Ele prontamente nos atendeu e conseguiu viabilizar o transporte por helicóptero", relata Michele Luciana Weber Pignataro Teotonio, sobrinha do paciente.

Uma rede de urgência acionada em cadeia

A partir desse primeiro contato, a mobilização ganhou escala rapidamente, passando pela Coordenação de Urgência e Emergência do Paraná e chegando ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de Curitiba, o Samu, responsável por articular o serviço aeromédico necessário em conjunto com o Núcleo de Operações Aéreas da Polícia Rodoviária Federal, a PRF. Ao desembarcar em Curitiba, Azuil seguiu diretamente de helicóptero, em uma aeronave operada pela PRF, até o hospital — eliminando por completo o gargalo do trânsito terrestre que ameaçava comprometer o cronograma da cirurgia.

Quando a rede de urgência é acionada e todos os recursos trabalham em sintonia, cada minuto se transforma em esperança, garantindo que o paciente chegue com segurança ao tratamento cirúrgico.

Jayme Carriello, diretor de Urgência e Emergência de Foz do Iguaçu

Sete horas fora do corpo do doador

Quando a cirurgia teve início, o fígado já estava há cerca de sete horas fora do corpo do doador — um tempo que, embora ainda dentro dos limites considerados seguros pela medicina de transplantes, reforça por que cada etapa da logística de transporte precisou ser cronometrada com precisão. Órgãos sólidos como o fígado dependem de condições rigorosas de preservação e de um prazo limitado entre a captação e o implante para manter sua viabilidade funcional, o que torna esse tipo de operação um verdadeiro trabalho de precisão entre equipes médicas, logísticas e de transporte.

A cirurgia, realizada no Hospital Angelina Caron, teve duração de 2 horas e 38 minutos, tempo considerado dentro da média para esse tipo de procedimento. A recuperação de Azuil também correu dentro do esperado: apenas seis dias após a cirurgia, ele já recebia alta hospitalar, um indicativo de que tanto a qualidade do órgão transplantado quanto a resposta do organismo do paciente evoluíram de forma favorável ao longo do pós-operatório imediato.

Como funciona a fila de transplantes no Brasil

No Brasil, a distribuição de órgãos para transplante segue critérios técnicos definidos pelo Sistema Nacional de Transplantes, vinculado ao Ministério da Saúde, que leva em conta compatibilidade sanguínea e imunológica, gravidade do quadro clínico do paciente e tempo de espera na fila, entre outros fatores — nunca a ordem de inscrição isolada. Isso explica por que um órgão captado em Maringá pôde ser destinado a um paciente residente em Foz do Iguaçu, município a centenas de quilômetros de distância: a compatibilidade médica, e não a proximidade geográfica, é o critério determinante para a alocação de cada órgão disponível.

  • Azuil estava na fila de espera por um transplante de fígado desde 2025.
  • O órgão foi captado em Maringá e originalmente destinado a outro paciente.
  • A cirurgia durou 2 horas e 38 minutos, e o paciente recebeu alta em seis dias.
  • O transporte combinou voo comercial, helicóptero da PRF e articulação do Samu Curitiba.

O Brasil e a fila do transplante hepático

O sistema público brasileiro de transplantes é reconhecido internacionalmente por sua abrangência: o SUS mantém um dos maiores programas públicos de transplante de órgãos do mundo, cobrindo integralmente os custos do procedimento, dos exames de compatibilidade ao acompanhamento pós-operatório, sem cobrança ao paciente. No caso específico do fígado, a fila de espera costuma ser especialmente sensível ao fator tempo, já que pacientes com quadros mais graves de insuficiência hepática podem ter sua saúde deteriorada rapidamente enquanto aguardam um órgão compatível — o que torna a agilidade de casos como o de Azuil ainda mais relevante dentro do contexto geral do sistema.

Municípios do interior, distantes dos grandes centros de referência em transplante, dependem justamente de estruturas de urgência bem articuladas, como a mobilizada em Foz do Iguaçu, para que a distância geográfica não se torne um obstáculo decisivo entre a convocação para a cirurgia e a chegada efetiva ao centro cirúrgico. Casos de transporte aeromédico para transplantes não são raros no Paraná, estado que, por sua extensão territorial e pela concentração de hospitais de referência na região metropolitana de Curitiba, frequentemente recorre a aeronaves da PRF, do Corpo de Bombeiros ou de empresas contratadas para viabilizar deslocamentos rápidos de pacientes em estado grave ou em situações de urgência cirúrgica como essa.

Quando minutos definem o sucesso de uma cirurgia

Para , o caso de Azuil Gomes Teotonio ilustra, de forma concreta, a complexidade logística por trás de cada transplante bem-sucedido realizado no Brasil — um processo que, embora frequentemente resumido na notícia do resultado final, depende de uma cadeia de decisões rápidas e coordenadas entre profissionais de diferentes instituições, muitas vezes sob pressão extrema de tempo. Segundo ele, episódios como esse reforçam a importância de estruturas de resposta rápida bem treinadas, capazes de improvisar soluções logísticas — como o uso de aeronaves da Polícia Rodoviária Federal para transporte de pacientes — quando os meios convencionais de deslocamento não são suficientes diante da urgência médica envolvida.

A recuperação bem-sucedida de Azuil, hoje já de volta à rotina após a alta hospitalar, é também um lembrete do papel decisivo da doação de órgãos: sem um doador e sua família dispostos a autorizar a captação, nenhuma estrutura logística, por mais bem coordenada que seja, teria como colocar em prática a corrida contra o tempo que salvou a vida do paciente paranaense.

Fontes e referências

Leia também