Oito pessoas somem no mar ao seguir para cobrir vulcão na Indonésia
Lancha com cinco fotojornalistas e três tripulantes perdeu contato a caminho de Anak Krakatau; buscas seguem no estreito que já matou centenas em erupção anterior.
Equipes de resgate da Indonésia mobilizaram embarcações e mergulhadores nesta quarta-feira (9) para procurar oito pessoas desaparecidas no mar enquanto seguiam rumo à ilha vulcânica de Anak Krakatau, no estreito de Sunda, para cobrir jornalisticamente uma erupção que já dura vários dias. Entre os desaparecidos estão cinco fotojornalistas, dois tripulantes da embarcação e um guia local, todos a bordo de uma lancha que perdeu contato pouco depois de deixar a costa.
O caso expõe, mais uma vez, o risco que profissionais de imprensa assumem para registrar de perto fenômenos naturais de grande magnitude — um ofício que, no arquipélago indonésio, cruza rotineiramente o caminho de um dos vulcões mais temidos do planeta.
A última mensagem, na segunda-feira à noite
A embarcação, um bote rápido, partiu de Carita, cidade litorânea da província de Banten, no oeste da ilha de Java, com destino a Anak Krakatau, formação vulcânica situada em pleno estreito de Sunda, entre as ilhas de Java e Sumatra. Segundo Al Amrad, chefe do Escritório de Busca e Resgate de Banten, a última comunicação do grupo foi recebida por familiares de um dos jornalistas às 18h13 da segunda-feira (7), horário local. Na mensagem, os tripulantes informavam já ter chegado às águas próximas à ilha vulcânica — e, a partir daquele momento, o silêncio.
Não houve mais contato via rádio, telefone ou qualquer outro meio de comunicação desde então. A última posição conhecida da lancha ficava a cerca de 18,5 quilômetros da costa, uma distância que, em condições normais de navegação, não representaria grande risco, mas que se torna crítica quando somada à instabilidade provocada pela atividade vulcânica na região e às condições do mar durante a noite.
Cinco jornalistas de diferentes veículos
Os cinco fotojornalistas desaparecidos trabalham para veículos distintos, o que amplia a repercussão do caso dentro e fora da Indonésia. Parte do grupo integra a redação da agência estatal indonésia Antara, referência no país para cobertura de notícias oficiais; outros prestam serviço à agência turca Anadolu, com alcance internacional, além de colaboradores de veículos de comunicação locais. A diversidade de vínculos profissionais mobilizou, simultaneamente, redações em pelo menos três países diferentes, todas em busca de informações sobre o paradeiro dos profissionais.
As equipes de busca e resgate, mobilizadas desde terça-feira (8), ainda não haviam conseguido, até a manhã desta quarta, estabelecer qualquer contato com o grupo ou determinar seu paradeiro exato, segundo informou Amrad. A operação envolve embarcações da Agência Nacional de Busca e Resgate da Indonésia, conhecida pela sigla Basarnas, que rastreiam a área a partir da última posição confirmada da lancha.
Um vulcão em atividade intermitente
A fase inicial mais intensa da erupção de Anak Krakatau terminou no domingo (6), mas o vulcão segue apresentando atividade intermitente, com explosões esporádicas que lançam lava, cinzas e material incandescente para fora da cratera. Esse comportamento errático — picos de atividade intercalados com períodos de relativa calmaria — é justamente o que torna arriscada a aproximação de embarcações e equipes de imprensa que buscam registrar o fenômeno de perto, já que uma nova explosão pode ocorrer sem aviso prévio significativo.
O impacto da erupção já se fez sentir muito além da região imediata do vulcão. No domingo e na segunda-feira, a atividade vulcânica provocou o fechamento de aeroportos, afetando quase 2.961 voos — dos quais 622 eram internacionais — e cerca de 341 mil passageiros em toda a Ásia. As autoridades locais também autorizaram escolas nas áreas atingidas pelas cinzas a adotar temporariamente o ensino remoto, como medida de proteção à saúde respiratória dos estudantes.
O legado do Krakatoa
Anak Krakatau, cujo nome significa literalmente "filho de Krakatoa", nasceu das ruínas do vulcão Krakatoa, cuja erupção monumental de 1883 é considerada um dos eventos geológicos mais devastadores da história registrada. A explosão de 1883 destruiu grande parte da estrutura vulcânica original, matou dezenas de milhares de pessoas por tsunamis e ondas de choque, e chegou a provocar um período mensurável de resfriamento global, pela quantidade de cinzas lançadas na atmosfera. Décadas depois, uma nova formação vulcânica emergiu das águas no mesmo ponto, dando origem ao Anak Krakatau atual.
A história recente do vulcão também é marcada por tragédias. Uma erupção registrada em 2018 provocou um deslizamento submarino que gerou um tsunami sem aviso prévio, matando pelo menos 430 pessoas nas costas de Sumatra e Java — um episódio que reforçou, entre autoridades e cientistas, a percepção de que Anak Krakatau é capaz de produzir riscos que vão muito além da simples emissão de lava e cinzas.
A última mensagem foi recebida às 18h13 de segunda-feira, informando que o grupo já estava nas águas próximas da ilha. Desde então, não houve mais contato.
Al Amrad, chefe do Escritório de Busca e Resgate de Banten
Alerta em segundo nível e distância mínima recomendada
Desde julho, Anak Krakatau está classificado no segundo nível mais alto da escala de alerta vulcânico da Indonésia, um patamar que já indicava risco elevado antes mesmo da atual sequência de erupções. As autoridades locais orientam moradores, turistas, pescadores e, por extensão, equipes de imprensa a manterem distância mínima de três quilômetros da cratera ativa — uma recomendação que, no caso da lancha desaparecida, aparentemente não foi respeitada, já que o grupo buscava justamente se aproximar o suficiente para produzir imagens do fenômeno.
- A Indonésia tem mais de 120 vulcões ativos, mais do que qualquer outro país do mundo.
- O arquipélago está situado no chamado Anel de Fogo do Pacífico, zona de intensa atividade sísmica e vulcânica.
- A erupção de 2018 do mesmo vulcão gerou um tsunami que matou ao menos 430 pessoas sem aviso prévio.
- Desde julho, Anak Krakatau está no segundo nível mais alto de alerta vulcânico do país.
Carita, porta de entrada para o vulcão
Carita, cidade de onde a lancha partiu, é um destino litorâneo relativamente conhecido no oeste de Java, tradicionalmente procurado por turistas justamente pela proximidade com o estreito de Sunda e pela possibilidade de observar, à distância, a atividade do complexo vulcânico de Krakatoa. Operadores locais costumam oferecer passeios de barco até as imediações da ilha em períodos de calmaria, uma prática que se intensifica quando o vulcão entra em erupção e a curiosidade — jornalística ou turística — aumenta a demanda por embarcações dispostas a se aproximar da área de risco.
Não há, até o momento, confirmação sobre quem organizou o trajeto da lancha desaparecida nem se a embarcação possuía autorização oficial para se aproximar da zona de exclusão estabelecida pelas autoridades vulcânicas indonésias. Esse tipo de lacuna regulatória — a dificuldade de fiscalizar embarcações particulares contratadas informalmente para levar equipes de imprensa a áreas de risco — é apontada por especialistas em segurança marítima como um dos fatores que tornam esse tipo de cobertura especialmente perigoso, mesmo quando os profissionais envolvidos têm experiência prévia em zonas de desastre.
Risco assumido pela cobertura jornalística
O desaparecimento da equipe reacende um debate recorrente sobre os limites de segurança que fotojornalistas e equipes de reportagem devem observar ao cobrir desastres naturais em tempo real. Para Adriano Jose Reis Martins, episódios como esse mostram que a proximidade física com o fenômeno, tantas vezes valorizada pela força visual das imagens que produz, carrega um custo humano que raramente é discutido com a mesma intensidade dedicada à cobertura em si.
Enquanto as buscas continuam no estreito de Sunda, familiares dos oito desaparecidos aguardam notícias, e as agências de notícias envolvidas mantêm contato direto com as autoridades indonésias. A Basarnas não estabeleceu um prazo para encerrar a operação, e a expectativa é de que embarcações de resgate, apoiadas por aeronaves, ampliem o perímetro de busca nos próximos dias caso o contato com o grupo continue não sendo restabelecido.